Negação

Te proponho cervejas
Noites luxuriosas
Ensino a tragar cigarros
E como dançar sambas
Lentos
Teus olhos todavia
Resvalam só pesares
A falta que te faz
Sabe-se-lá-o-quê
E pensas em como é triste
A ausência do sonhar
Enquanto se nega a dormir
Ou como te faltam
Fôlegos de viver
Se te recusas àcordar

De volta aos bares

Agoniza
A noite chacinada em bebedeiras

As beiras de calçadas abrigam ébrios
Imersos em suas íntimas
Melancólicas
Manjedouricas sarjetas

Contrariam
O vento da manhã sem sol
Gélida esperança perdida
Soprando aos seus ouvidos surdos
Despedidas

E andando no anti-horário das famílias
Cruzam com opróbio a desmedida
Ficcional existência
Chamada
vida

Mandarim

Meu olho iluminava teu corpo
Bijuteria brilhando ao sol
Imagem tão bela quanto falsos diamantes
Tão eterna quanto a porcelana fabricada nas oficinas
da República Popular da China

Poesia em mandarim são teus olhos
Um ocidente de arregaladas comunas
Vórtice brilhante de inspirações
Me deixando suspiroso a buscar versos
Que iluminem o lilás dos teus desejos

E sigo idolatrando teus seios
Subindo antenas de TV para teu nome os ventos escutarem
Pois não há orvalho tão doce quanto teu suor
Nem tão perfumadas pétalas
Quanto o olor dos teus pequenos lábios

Geovana's Happy Hour

O sol se punha com a tácita algazarra dos pássaros. As virginais ninfetas da escola saídas cruzavam olhares com os meninos e esses, retribuíam com comentários sexualmente muito maldosos para sua pouca idade. Perdida entre pensares importantes o suficiente para lhe tomar a mente após uma saraivada de alunos inquietos, mas não suficientemente ilustres para que ela se recordasse o assunto se perguntada uma hora depois, saía suspirosa de mais uma tarde de trabalho na escolinha municipal de Nova Almeida. A mochila pesada era carregada sobre apenas um ombro e o jeans levemente largo para suas medidas lhe imprimiam um ar descompromissado. As ruas estavam levemente movimentadas e entre os paralelepípedos e as calçadas irregulares, a sarjeta acomodava gentilmente os papéis de balas e outras guloseimas que eram vendidas à porta da escola, assim como as folhas secas de castanheiras que se derramavam sobre os dias como é comum em meados de agosto. Os passos lhe arrastavam até o ponto de ônibus e os meses lhe arrastavam para as férias tão esperadas. Sentia a estrada pulsando em suas veias. Uma vontade de viajar sem rumo por velhas carreteiras ainda desconhecidas. Não fumava, mas teve vontade de dar uns bons tragos no cigarro que um rapaz fumava à espera do Transcol. Orientou-se do tempo pela luminosidade do céu. Os tons de laranja convertiam-se em rosa e lilás, seguindo até um azul mais escuro no horizonte oposto. Mordeu levemente os lábios antes de romper a hesitação. Saiu a passos largos do ponto de ônibus, antes que fosse tarde demais. Chegou à rua da praia e levemente resfolegante, sentou à mesa de um barzinho, respirou fundo, afastando qualquer sombra de compromisso que lhe pudesse tomar o início de noite e avistando o garçom pediu uma cerveja bem gelada. Aliviou-se dos dias como uma epífita curada por chuva após alguns meses de estiagem. O sol esqueceu de se por vendo a jovem que se transformava em orquídea e até agora estão da mesma maneira, admirando-se um ao outro no entardecer de Nova Almeida.

Só Dois

Seremos só dois
Mas depois virão os outros
Com sua cara ou a minha
Tanto faz
Pois serão tu e eu
Pois seremos nós eles
E teremos um cão
Seu eterno rival
Pela liberdade das flores
Crescerem
No quintal
Casa cheia aos domingos
Babá nas noites de sábado
Conta conjunta
Seremos só dois
Compartilharemos livros
Comentaremos indignados
Crimes contra a família
Ou contra a paz mundial
Tanto faz
Pois serão nossos lábios
E olhos revoltosos
E quanto recolheres teus verbos
Tuas sobrancelhas serão sinais
Os dias passarão pensativos
Noites sem o suor do teu corpo
Mágoas
Nos porta-retratos dias coloridos
Viagens de trem
Amigos que já se foram
As rotas
Os corpos
Nas vidas nada mais do mesmo
Nem dos meus vinte anos
Porque o mundo gira
Em sentido anti-horário
Porque hoje seremos só dois

Bahia

Como sóis nascidos e poentes
Brilhos vistos nos olhos e nos ouvidos
Risos de cores e flores e panos
Ritos de música
Velhos e Novos Baianos
Do solo nascidos
Juazeiros e Remansos
Já diziam outros versos
E contos e cantos
Pois há inda quem diga
Que o Sol há tempos juntou seus panos
Com os da Lua sem revelia
E se casaram numa praia
Vivendo amor na Bahia

Borboleta

No azul das telas pintadas
Se foi, com asas de borboleta
Das tardes tingidas em flor
E poeira dos carros a passar
Mergulhada em novos anseios
De um só
Dia a mais para ver
Um pôr-do-sol em laranjas
Rimas de poeta ouvir
Quando aos ouvidos cantavam-lhe
Uma mentira a mais

E aconchegava-lhes ao seio
Só pra não dormir só
A noite que traz o sono
Do prazer e do desencontro
Mas destinação encontrou
Quando embriagada de luz
O vento sua asas deixou
À sombra do amanhecer

Poli(cé)tico

Regrados gestos
Ao público não observa
Passa por suas demandas
Dá de ombros

O compasso ditador do ritmo
Embala o asco que ora sinto
Dos meus passos nas rodas de samba
Que hoje, não –
Redondamente enganado
E cético –
Não creio no futuro da nação

Mais que isso
A corruptividade humana
Sequer me priva da repulsa a qualquer ideal moderno
E antes um ideal pós-moderno surja...
Realmente após essa modernidade

Não discordo dos argumentos democratas
Lamento os paletós, as bravatas
E as bandeiras vermelhas queimando na cidade
Enquanto sonhos de mudança são apagados
pela borracha dos balaços militares e bombas lacrimogêneas

Mas por hoje tentaremos chorar
Ou quem sabe seguiremos em noites
Regadas a cerveja barata e cocaína vagabunda
Acreditando que fazemos arte e vivemos poesia

Incidimos sobre os mesmos erros
Passos perdidos no passeio público
Filhos, novelas e cachorro latindo na varanda
Os dias seguem os mesmos
E sequer nos imagino escorrendo de alegria
Pelas ruas da cidade como fizemos noutras vidas

Empenhamos nossa beleza e sorrisos carinhosos
Vendemos beijos e mesmo noites de amor
Fomos agredidos e rejeitados
Sofremos da pele, dos rins e do coração
Negamos a solidão pois somente ela é verdadeira
E nos faz sentir o peso de tantos fetiches
Sem véus ou ataduras
As fraturas e cicatrizes de nossos calados desejos

Movimento

Brotam palavras de ordem das bocas jovens
Gritadas aos ouvidos
Dos velhos indignados com uma rua fechada
Trânsito lento
Vidas paradas
Os resmungos sobressaem ao vampírico movimento
Justo que se alimente do sangue jovem derramado
Ninguém lamenta
Enquanto há prantos
Dentro dos belos carros amontoados
Nas rotatórias das finas ruas
Pavimentadas da Praia do Canto

Avóbito II

Duas velhas repousadas
Dos dias de Alzheimer não se lembram mais
Estariam deprimidas
Ou teriam se esquecido
De se lembrar de viver?

Um mês interrompido
Largo de dias morridos
Aberto e fechado
Na serena placidez de um cemitério-parque
O mesmo outrora visitado

Velo noites de luas minguadas

E encontro tristes olhares
Nos mesmos olhos moldurados
Sobre uma boca rosada
E narinas ora chorosas
Por nossas velhas morridas

Dedicado a Vanda da Silva no dia de seu falecimento, 03/06/2011.

Vira-latas

Ganidos agudos
O auto veloz moveu-se de encontro ao cão
Que tristeza!
Na tarde poluída agoniza sob olhares
Da criançada agitada
O pobre vira-latas
Palmilheiro de ruas carcomidas
Dos bairros periféricos raramente saía
Caçando com sagaz olhar
A pelanca dispensada
Dos açougues e aviários
Dos jantares das famílias laboriosas pretendia
Apenas os roídos
Ossos que lhe cabiam
Observe o leitor que a tragédia se apruma
Do pet shop saído um yorkshire penteado
No coche alemão de um chofer desavisado
Movido à velocidade desumana
Das fluídas veias urbanas
Um pequeno desvio para além do que estava obstruído
E um salto da calçada de onde era enxotado
Produziu-se o encontro descrito
Agudos ganidos
Que tristeza!
Pra criançada agitada
O pobre vira-latas
Na tarde poluída agoniza sob olhares
De um yorkshire peinado

Poemas Apócrifos Para Sete Trajetórias Lunares

I

É normal meu bem
Que quando os dias nascem frios desejemos o verão
Que as aguardentes me alegrem, mas me doam pela manhã
É normal que a novela acabe
Mas outra sempre começa na segunda-feira seguinte
Pois nossos dias repetem-se na outridade do ser
Assim como minhas cefaleias
Que me fazem seguir confuso
Sem vontade de matar
Sem vontade de correr
Por essa distância estranha de Maruípe à tua rua
Ou da tua vida
De volta à minha

II

Pelas noites capixabas percorro aéreas distâncias
Entre as mesas pelas quais passo sem saber
Se quero um beijo, uma cerveja ou minha boca entre tuas coxas
Mas te guardas ainda
Em teu tálamo de precauções
Térrea capricornialidade
E segues batendo a testa contra as paredes de tuas resoluções
Enquanto, na verdade, queres mais do que meu doce bom dia pela manhã
Queres úmidos tremores
A convulsão do gozo que guardas para minhas narinas

III

Cubro-me com mantas de longas tertúlias e aprisionado
De sábado a sábado
Pela ansiedade de reencontrar teus olhos emoldurados
Emudeço com sorrisos tímidos
Abro novas estradas nas ruas já há muito postas
E como um desbravador das esquinas de Jardim da Penha te caço
Selvagem
Para que as parcas rodas do destino cruzem teus
Passos marcados
Saturnais
Com as linhas traçadas por minha hermética perseguição

IV

O ônibus passa pelo ponto
Me distancio de teu ninho
Arrastado como a maré vazante de Itaparica sou levado
Aos meus ciúmes e memórias ainda consagradas no incompreensível do ser
No entanto sigo atado aos meus desejos
Aos teus sorrisos e resmungos
Às tuas expressões leitosas que se repetem em minha mente cento e oitenta
e seis vezes por dia
E então me despedaço roto, descabido
A cada noite longe dos teus seios
Qual barco de pesca legado ao capricho das marés
E à inconstância de suas lunações

V

Brotam sorrisos de nossas patológicas existências
Se juntos marcamos o compasso das horas
Se nossas manhãs não resumem-se a ‘bons dias’
E nossas noites à perfídia de coitos sem paixão
Pois emaranhados em questões funcionais e jurídicas
Ordenamos nossas alvoradas e crepúsculos
Envolvemos entre nossas coxas muito mais do que o tesão dos transeuntes
Transamos nossas vidas
E estampamos em nossas peles as marcas desses dias
Com aquarelas de sangue e cabernet
O universo fecundo de nossas vontades
Pois só assim nossas vidas vagam
De vagar

VI

Ora sabeis de epístolas e mates
De ameríndias paixões e confidências guardadas
A quatro paredes conservadas por quantos dentes nos sobrem em boca
Nada fora do comum
Pois de comunidades fartos refazemos moradas
De outeiros arruídos onde abundaram serpes e sujos mendigos
Para que assim preservados em medo
Nós
Bolhas de excreta lançados ao mundo
Não rompamos em drogas e suicídios
Virtudes maiores nesses nossos tempos

VII

Da minha vida à tua
Porque não?
Percorro essa estranha distância de Maruípe a tua rua
Lento como quem contempla
Cândido como acordes matinais
Na serenidade das trilhas já calçadas
Em noites insones e doridas
Pois nossos dias repetem-se na outridade do ser
E a próxima telenovela
Também falará de amor
Assim como as cefaleias se seguirão às esbórnias
Pois é normal meu bem
Que quando os dias nascem frios desejemos o verão

Avóbito

Atingido por um avóbito
As lágrimas parentais
Retalham-me o animorto
E também eu lacrimoso
Tento em vão redargüir
Enquanto diz Deus aos vermes
Pequenos
Bon appétit!

À minha falecida avó Nilta Gomes Barboza, no dia de seu sepultamento.
04 de maio de 2011 (que belo começo de inferno astral!).

Noite Quente em Itaparica

Os portos desabitados tornam-se em praias
espoliados do seu direito geométrico
as funções se vão com o mar a cada onda polissérgica de paixão ou violência
repulsa às formalidades sociais
- inimigas das luas e dos beijos

Sutiãs repressores - eu me lembro bem
Cigarros e cigarras cantando em noite quente o mar de Itaparica
Goles secos em meu conhaque Presidente
Na companhia de outras vozes das quais pouco me lembro
mas impossível esquecer aqueles seios iluminados

Leves lambidas aos vagos sons
A língua desenhava papilas e mamilo
Emrubecia
Tocava com timidez minhas audazes vergonhas
Mas aos poucos desejava aquela língua em outras curvas
Mar violento de tantos tesões

Pelos, línguas
Azuis em lençóis de areia
Conquistávamos terreno - cavalo de pau em Tróia
Traiçoeira noite quente
Coxas, línguas chupando-se convulsivas
Três, quatro... nem me lembro mais
Tantas ondas rompendo o cais
Algibeiras arrebatadas pelo mar
mas impossível esquecer aqueles seios iluminados

Sunflower Sutra (Sutra do Girassol) - Allen Ginsberg

I walked on the banks of the tincan banana dock and sat down under the huge shade of a Southern Pacific locomotive to look for the sunset over the box house hills and cry.

Jack Kerouac sat beside me on a busted rusty iron pole, companion, we thought the same thoughts of the soul, bleak and blue and sad-eyed, surrounded by the gnarled steel roots of trees of machinery.

The only water on the river mirrored the red sky, sun sank on top of final Frisco peaks, no fish in that stream, no hermit in those mounts, just ourselves rheumy-eyed and hung-over like old bums on the riverbank, tired and wily.

Look at the Sunflower, he said, there was a dead gray shadow against the sky, big as a man, sitting dry on top of a pile of ancient sawdust--

--I rushed up enchanted--it was my first sunflower, memories of Blake--my visions--Harlem

and Hells of the Eastern rivers, bridges clanking Joes greasy Sandwiches, dead baby carriages, black treadless tires forgotten and unretreaded, the poem of the riverbank, condoms & pots, steel knives, nothing stainless, only the dank muck and the razor-sharp artifacts passing into the past--

and the gray Sunflower poised against the sunset, crackly bleak and dusty with the smut and smog and smoke of olden locomotives in its eye--

corolla of bleary spikes pushed down and broken like a battered crown, seeds fallen out of its face, soon-to-be-toothless mouth of sunny air, sunrays obliterated on its hairy head like a dried wire spiderweb,

leaves stuck out like arms out of the stem, gestures from the sawdust root, broke pieces of plaster fallen out of the black twigs, a dead fly in its ear,

Unholy battered old thing you were, my sunflower O my soul, I loved you then!

The grime was no man's grime but death and human locomotives,

all that dress of dust, that veil of darkened railroad skin, that smog of cheek, that eyelid of black mis'ry, that sooty hand or phallus or protuberance of artificial worse-than-dirt--industrial--modern--all that civilization spotting your crazy golden crown--

and those blear thoughts of death and dusty loveless eyes and ends and withered roots below, in the home-pile of sand and sawdust, rubber dollar bills, skin of machinery, the guts and innards of the weeping coughing car, the empty lonely tincans with their rusty tongues alack, what more could I name, the smoked ashes of some cock cigar, the cunts of wheelbarrows and the milky breasts of cars, wornout asses out of chairs & sphincters of dynamos--all these

entangled in your mummied roots--and you standing before me in the sunset, all your glory in your form!

A perfect beauty of a sunflower! a perfect excellent lovely sunflower existence! a sweet natural eye to the new hip moon, woke up alive and excited grasping in the sunset shadow sunrise golden monthly breeze!

How many flies buzzed round you innocent of your grime, while you cursed the heavens of your railroad and your flower soul?

Poor dead flower? when did you forget you were a flower? when did you look at your skin and decide you were an impotent dirty old locomotive? the ghost of a locomotive? the specter and shade of a once powerful mad American locomotive?

You were never no locomotive, Sunflower, you were a sunflower!

And you Locomotive, you are a locomotive, forget me not!

So I grabbed up the skeleton thick sunflower and stuck it at my side like a scepter,

and deliver my sermon to my soul, and Jack's soul too, and anyone who'll listen,

--We're not our skin of grime, we're not our dread bleak dusty imageless locomotive, we're all golden sunflowers inside, blessed by our own seed & hairy naked accomplishment-bodies growing into mad black formal sunflowers in the sunset, spied on by our eyes under the shadow of the mad locomotive riverbank sunset Frisco hilly tincan evening sitdown vision

Assassina Poesia

Me inspiro em poemas. Poetas modernos de outrora que acabaram com a porra toda que vinha sendo feita antes deles. Modernos demolidores.
Deixem a métrica para os parnasianos - maquina de escrever versos! Já dizia o velho Oswald; e mesmo o amor romântico, velha amolação elizabethana. Banido! Insultar a beleza é que virou rock, ao menos foi pra Rimbaud, que parou de escrever poesia e virou traficante de armas. Morreu aos 37, sem uma perna - amputada por sinovite e carcinoma. Se não rompeu com a tradição romântica de ter uma vida curta, morreu de um câncer inédito ao panteão dos poetas. Já Ginsberg transou com Neal Cassady que por sua vez transou com um cara que transou com um cara que transou com Walt Whitman e acreditava ter recebido da porra fecunda do beat Moriarty a herança poética de Walty ou sabe-se lá que outra doença.

Corrosão, diria Mishima. Isso é o que fazem as palavras. Matam o sujeito, o tempo do verbo e da vida. Delicadeza no olhar ou a busca por uma experiência maior que a experiência da organicidade viva?... A modernidade acabou com as vanguardas para as modernidades futuras. Era de aquários, expeculam uns, então todos serão artistas. Mas porque diabos a essência destrutiva da poesia haveria de destruir em si o própria poeta? Ou quem sabe o poeta cansado de destruir-se em poesia tenha tentado dar um ponto final ao poema. Tentou-se até o não-poema, sepultando as palavras em esquifes concretistas. Terrível século XX de antíteses personificadas, e nessa guerra pela sobrevivência a poesia leu de análise freudiana a receita de bulgur com courgette, então, quando descobriu-se que o eu-poético era um sujeito patológico puseram-no em divãs, artaudoado em manicômios, a poesia verteu-se em páginas e páginas de fisiologia hipocondríaca e dissecações existenciais heideggerianas. O "eu" foi vencido pelo "poético", e na aventura pós-moderna de quem não chegou após o moderno, a crítica internou o sujeito na Colônia Juliano Moreira sob o diagnótico de "esquizofrênico-paranóico". Proibida a primeira pessoa do pronome pessoal do caso reto, a outridade severina emerge nos sentidos cabralinos. Nada de paixões! Mata-se então o sujeito para a honra e glória da poética arte literária.

Merecido fim.

Cabe a vós, jovens poetas, abandonar a idéia de um dia serem reconhecidos como tal. Vão desenvolver softwares, cursar engenharia, virar sub-produto da indústria cultural de massa ou se acabar em drogas, caralhos e bucetas! Quem sabe consigam uma morte prematura decorrente das tão raras doenças venéreas e então alguns amigos lembrem dos textos postados em algum blog perdido ou naquele livro publicado com verba pública que quase ninguém leu e digam "Este viveu pela poesia!".