Poemas Apócrifos Para Sete Trajetórias Lunares

I

É normal meu bem
Que quando os dias nascem frios desejemos o verão
Que as aguardentes me alegrem, mas me doam pela manhã
É normal que a novela acabe
Mas outra sempre começa na segunda-feira seguinte
Pois nossos dias repetem-se na outridade do ser
Assim como minhas cefaleias
Que me fazem seguir confuso
Sem vontade de matar
Sem vontade de correr
Por essa distância estranha de Maruípe à tua rua
Ou da tua vida
De volta à minha

II

Pelas noites capixabas percorro aéreas distâncias
Entre as mesas pelas quais passo sem saber
Se quero um beijo, uma cerveja ou minha boca entre tuas coxas
Mas te guardas ainda
Em teu tálamo de precauções
Térrea capricornialidade
E segues batendo a testa contra as paredes de tuas resoluções
Enquanto, na verdade, queres mais do que meu doce bom dia pela manhã
Queres úmidos tremores
A convulsão do gozo que guardas para minhas narinas

III

Cubro-me com mantas de longas tertúlias e aprisionado
De sábado a sábado
Pela ansiedade de reencontrar teus olhos emoldurados
Emudeço com sorrisos tímidos
Abro novas estradas nas ruas já há muito postas
E como um desbravador das esquinas de Jardim da Penha te caço
Selvagem
Para que as parcas rodas do destino cruzem teus
Passos marcados
Saturnais
Com as linhas traçadas por minha hermética perseguição

IV

O ônibus passa pelo ponto
Me distancio de teu ninho
Arrastado como a maré vazante de Itaparica sou levado
Aos meus ciúmes e memórias ainda consagradas no incompreensível do ser
No entanto sigo atado aos meus desejos
Aos teus sorrisos e resmungos
Às tuas expressões leitosas que se repetem em minha mente cento e oitenta
e seis vezes por dia
E então me despedaço roto, descabido
A cada noite longe dos teus seios
Qual barco de pesca legado ao capricho das marés
E à inconstância de suas lunações

V

Brotam sorrisos de nossas patológicas existências
Se juntos marcamos o compasso das horas
Se nossas manhãs não resumem-se a ‘bons dias’
E nossas noites à perfídia de coitos sem paixão
Pois emaranhados em questões funcionais e jurídicas
Ordenamos nossas alvoradas e crepúsculos
Envolvemos entre nossas coxas muito mais do que o tesão dos transeuntes
Transamos nossas vidas
E estampamos em nossas peles as marcas desses dias
Com aquarelas de sangue e cabernet
O universo fecundo de nossas vontades
Pois só assim nossas vidas vagam
De vagar

VI

Ora sabeis de epístolas e mates
De ameríndias paixões e confidências guardadas
A quatro paredes conservadas por quantos dentes nos sobrem em boca
Nada fora do comum
Pois de comunidades fartos refazemos moradas
De outeiros arruídos onde abundaram serpes e sujos mendigos
Para que assim preservados em medo
Nós
Bolhas de excreta lançados ao mundo
Não rompamos em drogas e suicídios
Virtudes maiores nesses nossos tempos

VII

Da minha vida à tua
Porque não?
Percorro essa estranha distância de Maruípe a tua rua
Lento como quem contempla
Cândido como acordes matinais
Na serenidade das trilhas já calçadas
Em noites insones e doridas
Pois nossos dias repetem-se na outridade do ser
E a próxima telenovela
Também falará de amor
Assim como as cefaleias se seguirão às esbórnias
Pois é normal meu bem
Que quando os dias nascem frios desejemos o verão

Avóbito

Atingido por um avóbito
As lágrimas parentais
Retalham-me o animorto
E também eu lacrimoso
Tento em vão redargüir
Enquanto diz Deus aos vermes
Pequenos
Bon appétit!

À minha falecida avó Nilta Gomes Barboza, no dia de seu sepultamento.
04 de maio de 2011 (que belo começo de inferno astral!).