Femenina

Tão mergulhadas em problemas se apresentam
Olhos borrados qual aguadas de nanquim
Luas minguadas e volúpias incontidas
Ao desbundar das cheias
Teias de mentiras
Palavras vertidas
Incontáveis
Ao ralo jogadas
Pelo nada ouvidos
Dores
Doenças
Prolixas patologias
Que pronto esquecem, risadas
Gritos, pulos, ecos de euforia
Em lábios o batom forma um sorriso
Estampando em boca qualquer
Um dar-se como menina
E receber como mulher

Passarinhos

Nossos sonhos e versos
Furtirroubados
Ao som de marchas
Cantares acabrunhados
Virtudes monocromáticas
Passeiam por solo insípido
Com rouxinóis sufocados

Secretados os porquês
Nossos tímpanos se rompem
Sequer o som do tarol
Recusam-se escutar
Ao perceber os reais motivos
Permanecemos assim
Parados

Azulada a liberdade
O entardecer nos condena
À midiocracia gritada
Simulacro de prazer
À venda as ervilhas verdes
Apodrecem nas bancadas
Saberíamos porquês?

Bem-te-viram podados
Os galhos dos jatobás
Desembotando tristezas
Cansados desse silêncio
Só há pena a quem calar
Nas virtuárvores negras
Passarinhos a twitar

Cidade Fria

Como gasto papel transando essas linhas
Buscando sombras e letras
Devanescência de sonhos
Percorro diárias distâncias
De passos e buscas
Que cruzam
Dos jardins frente aos edifícios
Praças de Itaparica
Às calçadas da Fonte Grande
Ou mesmo menos que isso
Buscando raios de sol
Candescentes
Botões flores
Cantigas
Que acalantem a vida
Apaziguem guerrilhas
E aqueçam os dias e noites
Desta humana cidade fria

Jardineira

I
Paisagem descolore quando passa ela
Batom vermelho na boca
Cabelo preto demais
Bonita como quem só

À tardinha, jardineira
Frutos colhe ao bel prazer
Finge até ser mastigada
Pelo fruto que ora engole

E morde corações quentes
Vampira de olhar verdeado
Deixando o Jardins calado
No desfrute de seus dentes

Na estrada uma formiga
Forma amiga de abrigar
Os restos de folha caída
Antes de ser pisada

Ensanguentados os campos
Miocárdios são pastados
Cansados de vãos pulsares
Pela jardineira infame

II
Duas línguas se entrecruzam
Dançando na tessitura dos
mal entendimentos
Passam dias a desdizer
acusações
Injuriar provocações
Às brigas se sucedem rompimentos
De bênçãos e casamento sacramentado
Pelo santo e falecido padre
se esqueceram
Outrora vivências vívidas
Que enrugam-se qual uvas ao tempo
E aquele porta-retratos
Às passas ora pertence

Cinzento

Metido de frio
Nas mãos
O bolso encontrou vazios
Recônditos recantos
Para fugidios dedos
Que em desacordo com as cordas
Concordou em desatar
As melodias da viola
Numa esquina de tarde
Quem sabe um pouco cinzenta

De cartas não houve jogo
Jogadas em si ficaram
Esquecidas das partidas
De cachaça branca noites
Seguindo apostas perdidas
Porque a vida não perdoa
Baralho de cartas marcadas

Mas nessa tarde nublada
Com silêncio de emudecer
Não tivesse quem chorasse
Crianças passavam lentas
Borboletas nem se fala
Risadas pouco escondidas
Só no cheiro de café e bolo
de fubá

O sabiá dormiu cedo
Girassóis nem se fala
Cantigas de roda, parlendas
Não tinha quem ouvisse
Ao som de uma viola torta
Num fim de tarde cinzento

Santidades

I
Nossos dias sempre foram assim
Cachoeiras pela manhã
Café quente e Bom Dia Brasil
Buscamos pontos de equilíbrio
Nas pétalas das flores
Mas asas de borboletas eram e voaram
Como orvalho secando ao sol
Assim foram nossos dias
Tardes quentes
Versos livres
Culinária, nudez e outros amores
Cigarras ao por do sol
À noite,
Luzes rodando sobre nossas cabeças
Éramos assim...
Mais pra lá do que pra cá

II
Ah, quanta ousadia
Das bocas das crianças
Às falas dos sacerdotes
Tudo se quer falar
Quase nada há de ouvir
Ou a Deus obedecer
Ou o Diabo mandar
Sem muita opção
Se cala o poeta
Como quem chora de amor
Em meio ao passeio público

Depressivo

Como enamorado à espera de um beijo
Contraia-se, lesma sob sua concha
Rogando a passagens destes dias
Medo e angústias por companhia
Não lhe davam minuto descansável
Ali permaneciam imóveis
Entre o peso de seu coração e o capacho estirado à porta

Arrancava seus cabelos
Com as mãos
Emaranhados entre os dedos
E os subprodutos da masturbação
De nada adiantavam
Aguardava o fim filme
O aparecimento dos letreiros
O ascender daquelas belas voláteis claras luminescentes lâmpadas

Coragem não haveria
Mas quem sabe... um beijo enamorado
Ou mesmo flor borboleta dia
Cores já desconhecidas a lhe causar
Cócegas em narina e risos
Espirros multicoloridos
A povoar sonhos
De primaveras não vividas

Ano Novo

Mais passos
Más passagens
As vias cada vez mais largas
Acumulam mobilidades
Estreitas modernidades

Mordemo-nos dia-a-dia
Rosnando ombros sem carícias
Falácias
Falhas sociabilidades
Passado a virada
Os votos de paz e o amor
Seguem engavetados
Em 364 dias de indiferenças

Movem-se máquinas
Sistemas e bancos de dados
Insones
E sempre haverá mais um pau-de-arara
Subindo as serras
Buscando alcançar
Velha feli(z)cidade