Hórtico

Passam dias e ruas
Casas de azulejos antigos
Portas pernas para-quedas
Que se abrem para nós
Meus pés de Hermes alado
Levam-me por aí
E as natimortas ideias de liberdade
Cansam-se da existência
Antes mesmo de ser vento nos cabelos
E passos sob os pés
Mas se cansado me encolho
Como pássaro em galho de aroeira
Encontro em árvore abrigo
Raízes certas de verdades tortas
E vejo olhos e bocas
Narizes e sorrisos
Palavras não minhas
Que em tudo me revelam
Observo como em labirinto de espelhos
Distorcidas versões de eus tão diversos
Dois homens e duas mulheres
Mais dois homens e duas mulheres
E as crianças pra colorir
De frutos galhos crescidos
Passam-se então sobre a casca desse corpo
Cicatrizes e fungos
Novos brotos
Formigas
Histórias estampadas
Que também lhe correm em seiva
Carinhos de mãe
Advertências do pai
Descobertas do irmão
A inacabável guerra dos sexos
No amoroso ódio do odioso amor
fraterno
Encontro a semente de mim
A origem de meus irmãos
Os sonhos e frustrações
De todas as famílias do mundo
Cantigas de ninar
Lições de amor a deus
E de temor das ruas
Dos homens, dos pretos
Das estradas
E também de deus
E ter coragem para vencê-los
Todos...
Enterrados no fundo do quintal
A sociedade nos espera
Passarinhos azuis twitando pelos campos de concreto
Desejos podados
Amores vívidos
Lembranças de árvores
De outros pomares
De seios que não amamentaram
Veja só...
As pedras tombam sob águas em torrente
Árvores são levadas por ventos
Ventos de mudança
E movimento
Que balançam galhos
Arrancam folhas
Mas o tempo sossegado está
E nossa velha morada ainda permanece
Abraçada à terra com os tempos passados
Dia após dia
Gravando nas letras das cantigas
Nos olhos das corujas
No latido dos cães
E nos campos de sonhos de quem
Se perdendo no mundo
Volta a se encontrar
No colo de pai e mãe