La Cosecha de Jhon

Pasas por las calles
Dejando sangre y sonrisas
Pasas por las vidas
Más que por las vias
Dejando accá Bogotá
Haciente mucho latino
Nuestro pequeño hogar
Camiñas por existencias
Construyendo su família
Como hermanos y hermanas
De la tierra somos semilla
De la carne somos la sangre
Del cielo
Estrellas fugaces
Que nos encuentramos en los bares
Donde bebimos vida
Y en las calles sembramos flores
Nuestra loca poesía
Así pasaste por estas vías
Recogendo Vitórias guayabos besos
Sembrando encuentros y sonrisas
¿Que más valioso puedes llevar desta cosecha
Además de saber que dejas
Mucho amor en nuestras vidas?

Passagem

A passarela acompanhava as linhas curvas do prado. Mãos dadas roçando polegar e indicadores de uma excitação crescente. Os dedos finos de pele clara e delicada suavam minúsculas gotas que aumentavam a sensação de contato com a mão avermelhada e quente que envolvia e apequenava ainda mais a sua. Em Brasilia, dezoito horas. Paaam-paam-pararaaam, paaam-pararam, pam-pam-pam pam-pam-pam-pam-pam-pam-pammmm pam... A música do rádio é uma velha conhecida de qualquer brasileiro, tocando todos os dias para Silvas, Oliveiras e Santos devotados ao triunfo de seus ilustres patrões que lhes apequenam os anseios e lhes cegam os sentidos. Enquanto a vida passa no transcol da Reta da Penha, o suor seguia escorrendo, arregalando poros e amígdalas, glândulas latejantes pelo calor daquela pele de fogo. Arco de Diana nas mãos de Afrodite.

Automebas

De decrescentes andares
Saltam corpos nas avenidas
Pululantes amebas
No asfalto quente derretem
Esmagadas por automóveis
Que elas mesmas dirigem

Devoção

A tarde cai em noite chuvosa
Gargantas degoladas povoam telas azuis
Uma exposição de espelhos auto-refletidos
Como símios descontentes
Lançam merda aos que observam
Por detrás das grades das jaulas
Às quais muitos se encerram
Mentes postas a mesa
Iguarias para os abutres encefalófagos
O consumo dos dias
Os seios na televisão
Os jogos de videogames
Aos sábados, ir ao shopping com a família
Aos domingos, só Deus sabe
Às segundas o inevitável acerto de contas
Sem esquecer a conta do médico
de próstata e mama
A desvalorização crônica de sua aposentadoria
A degradação do meio ambiente
Que aos seus extremos já degradaram
A vida está por um fio
De fibra ótica que cega
Para o colorido dos dias
Ao Deus dará esperamos
A velhice com Alzheimer
Para que não lembremos todo o lixo que comemos
Para que não choremos toda a vida que cagamos

Noites Mornas

Mornas noites decoradas
Com luzes de hoste e milícia
Ladram cães cinzentados
A fuga sucede em rotina
Calçadas seguem vazias
Povoadas por semi-homens
Ocultos à sombra do não-dia

Nas paredes sujas
dos bares baldios
Resta apenas a lembrança
Dos que hoje em recôndito
Estão cansados das armas
De polícias e bandidos

A noite morna caminha
Com os pés em areia e lama
Esta seca e vazia
E enquanto ao céu puído sobe
O fumo cálido dos fornos das usinas
A lua cospe luz fria
Para poupar sua energia

Das patologias e outras doenças

A tosse insistente me fez acordar às 6h30 para tomar o xarope expectorante de acebrofilina e o antibiótico receitado na semana anterior por causa da sinusite. Aproveitei e tomei um pequeno antialérgico e um omeprazol, pra que os demais comprimidos não despertassem novamente minha gastrite. Deitei tentando me esconder do mundo dia, não que sentisse qualquer mal-estar físico, mas porque queria me permitir meia hora a mais debaixo do edredom. Pouco depois acordei assustado com o celular que tocava ao meu lado. Luci ligava para me desejar um bom dia, ou pra me contar as últimas como fazem os casais. Olhei a hora, 9h21. Pigarreei e havia só um cisco de voz. Atendi com a voz rouca. A dela também não parecia das melhores. Lhe disse que sentia taquicardias, talvez pelo susto do toque do telefone, talvez pelos remédios que eu havia tomado horas antes ou quem sabe por algum mal oculto alojado em meu miocárdio, afinal, meu pai é cardíaco, o dela também e estavam se tornando frequentes essas taquicardias. Outro dia, após uma trepada, senti uma alteração nos batimentos do coração que poderia muito bem ser fruto de uma arritmia ou mesmo de um sopro. Meu coração bate suspirando, disse a ela na ocasião.

Luci me disse ao telefone, sem muita paciência, para procurar um cardiologista na clínica social de Laranjeiras e desabafou sobre sua falta de tempo para terminar sua dissertação de mestrado, do prazo que estava se esgotando, do tempo que ela perdia de casa até a escola onde trabalha e da inflexibilidade de sua diretora com seus atrasos frequentes. Acredita que ela me deu uma falta porque eu faltei anteontem para levar Bia no médico, me disse. Bia era sua filha que tinha quatro anos de idade e estava com uma infecção de ouvido. Coisa de criança. Mas de fato notei que Luci não estava muito paciente naquele dia, nem nos dias anteriores. Me sentei na cama e lhe disse que teríamos um dia melhor hoje. Ela me respondeu descrente que sim. Desligamos.

Fui para a cozinha fazer um café. Já passava das dez da manhã. Exitei um pouco antes de acender um cigarro, mas acabei cedendo. Devia cuidar melhor da minha gripe alérgica. Enquanto bebia meu café sentado no sofá, onde ainda batia um pouco de sol, pensava sobre os problemas de Lucy e de como poderia melhorar seu dia, então observei que minha pele estava precisando de um creme dermatológico. Detesto cremes e pomadas, mas a maldita pitiríase rósea havia voltado e as marcas da herpes-zóster ainda não haviam desaparecido da minha coxa esquerda. Encontrei um hidratante caro que usei após a retirada de dois nevos melanocíticos nos pés dois meses antes e espalhei sobre as pernas e braços ressecados.

Senti uma pontada de tristeza, uma sensação de ausência ou algo do tipo. Me arrumo e saio de casa. Eu estava na farmácia do trevo de Fradinhos comprando um spray de própolis, um soro nasal e alguns preservativos com design que eu ainda não havia experimentado quando Lucy me liga novamente. Era 11h21 e achei muita coincidência. Vinte e um... Ela me disse que estava louca, Bia enrolava para tomar banho e não queria almoçar e que ela acabaria se atrasando mais uma vez para chegar a tempo em Nova Almeida e que a coordenadora da escola já estava de marcação com ela. No meio desse turbilhão me veio à mente uma frase que às vezes eu utilizo, quase como um mantra e que muitas vezes funciona e quando percebi já estava dizendo a Lucy ao telefone "Toda a alegria do mundo está nos seus olhos". Faço isso às vezes. Crio frase e fico me convencendo delas para deixar meu dia melhor. Lucy ficou puta e disse que minha vida era muito fácil e que, além do mais, ela era míope e não via porra de alegria nenhuma na merda do mundo. Beijo. Tchau! Desligou. Vinte reais e noventa e sete centavos, disse a balconista da farmácia com cara de Rainha do Rodeio de Brejetuba. Entreguei a ela R$21,00. Não houve troco. Mais uma vez vinte e um...

Sai da farmácia, apliquei o própolis na garganta, o soro nasal onde é de costume e fui andando para o ponto de ônibus meio puto pelo fato da Lucy ter desligado na minha cara. Auto-sugestão... comigo sempre funciona. Por fim relevei, mas se as pessoas tentassem perceber que "toda a alegria do mundo está nos seus olhos", acho que teriam uma vida muito mais saudável e feliz. Acendi um cigarro e quando dava o primeiro trago passa o meu ônibus.

Passados


O tempo para quando se espera
Aí não há tempo
Há o que for
Pensamentos longos
Palavras perdidas
Nos labirintos da memória
Insatisfações

O anelo está em si
No ser que deseja
Na temporalidade do querer
Seja o que for
Espera-se o fim
Da espera
Satisfação

Alheios instantes seguem
Ponteiros girando incessantes
E ao que foi feito
Sentido no próprio
Desejo satisfeito
Consome o prazer do gozo
Seja qual for

O tempo se cria do que passa
De passos
Pegadas na areia da praia
Ou qualquer outra metáfora
Criamos o desejável
E o desprazer da ânsia
Por isso corremos
Seja quem for
Para alcançar-se
Satisfeito

Dos passos criamos tempo
E este é todo apressado
Vivendo de anseios frustrados
Momentos de espera
ou gozo
Seja o que for
Fomos
E assim estamos
Passados

Mandala

Parte da terra essa coisa toda
Sementes féculas e florações
Parte da água também
Fluidos de saliva e suor
Hormônios e almíscar

Outro dia vi
O céu chovendo terra
Agitada pelo vento
Derrubando árvores

Que terra é essa que repele
O que brota dessa terra outra?

Do encontro entre água e terra
Sinto o suave
A argila criando dedos
Curvas vivas de massa úmida
Gerando desejáveis deuses
Amantes construídos com argila e fogo
Que de águas e terras vindos
Arrebatam poderosos
De nossas vistas o sol
Da terra se lhes convém

Acho que parte do fogo essa coisa toda
Nossas moradas incendiadas
Massa ígnea fluída
Como a água que, artesã
Envolve a terra entre os dedos
E estes desaparecem cobertos
Pela fúria dos vulcões

Incendiados
Somos terra e água
E cinzas arrastadas pelo vento
Terra que sobe ao céu
Para depois descer
Devastadora como as paixões que lemos
Nos livros e nos poemas

Sim
Parte da terra essa coisa toda

Ventania

As ruas foram varridas por revoltados ventos
As asas quebradas dos mal fadados pássaros
Contaram-me sobre o que não pôde ter sido
Tessituras repletas de buracos
Maltrapilhos encontrados na perdição de dias outrora marcados
Nada a ver com o que não se esperava
Mas a espera
Longa caminhada
Não me levaram à minha mesma casa
Às mesmas existências nossas
Ao revés
Revi tudo abandonado
Desabadas prateleiras da associação de artesãos
Das aveludadas salas de espera
Dos cinemas e teatros
Que não se associam aos artesãos das praças
Aos perdidos caminhantes das estradas de asfalto
Repletos de berlugas e piolhos sobre suas aéreas
Cabeças
Perdi meus sapatos e caminhei descalço
Velhos ventos soprando ruínas
Desencontros compartilhados por frustrações arredias
Decepadas propostas
Decapitadas falas
Fálicas falácias de contrariadas vaginas
Arrancadas as arvores de uma geração falida
Passada
Calças ruas calçadas repletas de sequidão
Cruzada por pés descalços
O peso dos dias sobre os maltratados ombros
Postos à lixeira de um progresso armado
Sonhos
Arames farpados ao redor dos anseios desconhecidos
Casa de marimbondo sobre os maracujás maduros
Ceifa de soja agrária nos envenenados campos
Coitos desenfreados com lágrimas nos olhos
Pelas borboletas mortas
Pelo alvo perdido
Nas labirínticas ruas dos risos inalcançados

Perdição

Nos perdemos no óbvio
Das salas de espera
E em horas extras que tomam
Muito mais
Que horas extras

Nos movemos mórbidos sobre as avenidas
Empilhando desejos
Andar por andar
Em apertadas caixas de ilusão

Como lesmas que se arrastam
Pagando uma vida inteira
O peso de sua concha

Conduzindo o tempo sobre as horas dos dias
Com enlatados egos comprados
Nas vitrines dos desejos formatados

Não vemos porque estamos cegos
Levando os olhos nas carteiras
E à luz do sol nos debatemos
- Irônicos morcegos

Espalhamos sentidos ao que quer que seja
Vetorizados os anseios
Deificamos escarros, esporros
Massa hercúlea de frustrações

De não sermos nunca as vidas
Das novelas e revistas
Incessantemente consumidas
Doze meses por dia

Canto ao Jovem Pound

Já celebrei mais de três céus
Em mais de três oceanos
E digo: nada é igual
Gaivotas e andorinhas
Nuvens de chuva ou sol
Mudam de cor com o tempo
As conchas e os caracóis
Mulheres não há iguais
Bicos de peito e manhas
Pelos na pele
Encontros
Desejos, os mais diversos
E há muito mais que três cidades
Ou três cores de olhos
Rosados, rubros e negros
Lábios grandes e pequenos
Inferno purgatório e paraíso
É pouco para um latino Virgílio

Estrelas

Há noites belas
Com brisa pixada nos muros
Vento leve passando por cabelos
Que não se mexem
Negros cabelos crespos
O luar pendurado logo acima dos postes
As estrelas não se vê...
Mas é bom saber que brilham
A vinte anos luz
Da Ilha de Vitória

Noites Demais

Chegam mais e mais
Trocando cumprimentos e sorrisos
Empertigados espíritos
Mostram aos olhos atentos
As folhas caídas
De outras estações
Nada a ver com algo belo
Da beleza dos estetas
Digo de areia e lama
Suor escorrendo das testas
Bicas de sentimento fluindo
Dos lábios das paixões das ideias
E porque não
De substâncias secretas
Guardadas por mãos negras

As noites encolhidas passam
Temerárias horas de espera
Doses e mais doses de conversa leda
Composta em tantos ruídos que me escapam
A melodia dos sonhos
Do voo de borboletas
Da voz feminina à minha frente
E ainda muita coisa falta
Os espaços vazios
Vagões sobre trilhos comprimidos de desejos
Sinceros beijos sorridentes
E ainda sobra tanta coisa
Que um olhar atento poderia revelar
Mas nós estamos cegos

Temores

Exposto à natureza dos homens temo
Moral relógios bebidas alcólicas chás emagrecedores
Empregos
Brigas e brigas após noites de sexo
A diária cópula das moscas
Perdem noites afirmando verdades
Não sabendo que a única verdade está no sonho que não tiveram
As roupas os cheiros
As afirmações homo-afetivas
As declarações hetero-normativas
Os pais os anéis o status do serviço público
Os carros....
Ó deus todo poderoso
Como temo os carros

Vitórias

Aconselho Vanessa
Com o carinho de um amante
Desejo boa noite a Ana
Elogio os lábios de Camila e digo
Você é linda
Troco olhares com Carolina
Tapas e toques com Mariana
Compro bombons para Olavo
Beijo o pescoço de Marcela sempre que a cumprimento
Ela se arrepia
Seguro as mãos de Yara
Roço os ombros nos seios de Fernanda
Escrevo e-mails para Lucas
Lembro noites com Érica
Me masturbo por Kehlen
Recebo mensagens de Aline
E me embriago todas as noites
Exalando tesão e injúrias
Para dormir sozinho

Amanhecer

As garrafas estão vazias sobre pilhas de outras garrafas
Vazias
A sala se desfaz do encanto da noite quente
Dos copos cheios de cerveja
E corpos quase nus tocando
Dois ou três outros corpos
Quase todos dormem
Do outro lado de nossas paredes
Cheiros risos cantos desconhecidos
De todos que passam debaixo
E acima dessas janelas
Os cigarros se acabando
Contam cinzeiros cheios
Verdades gritadas à noite
Que não são mais que lixo
Ao adormecer da lua

Da Vida

Estava assim
Como sempre nunca estivera antes
Lábios grossos desejos
Pernas como não nem
Sempre estivera ali
Perdida entre montes
Multidões de olhos castanhos
Nada queria
Mesas de bar e jogos
Passagens passes ao fim da sessão
Pernas como nunca jamais
Olhares atentamente desperdiçados pelo ar
Da noite nada queria
Jogos de mesas em bares
Lábios
Grossos desejos
Tomou um trago e voltou
Para a rua
E os reflexos nos olhos dos perdidos meninos mudaram por todo o resto da vida

Cereja

Ela olha séria
Vítima
Diz que sofreu injúrias
Abandono violações
Não se questiona um momento
Sequer
Perde-se nas frases feitas
Por si mesma
Quer ser
Quer ter
O que quer que seja
Apertando os dentes enfrenta
As luas
As noites escuras
Campos de corujas não mais
Cabelos ao vento
Nem pensar
Mascate das matinais horas
Não se perde no caminho
Nunca
O encontrou
Cedo
Ou tarde demais

O Caçador

Para Fenris Khefferos

Nada diante dos olhos
A noite como véu cobria
Cores carros vida
Carinho de mão amiga
E beijos de jovens moças
Tudo fora do eixo
Movia-se no sentir
No ressentir tantas ausências
Das surras risos de homem
Os de mulher lhe feriam os ouvidos
A turma seguia patrulhando as ruas
Mocinhos e bandidos
Horda de infantes bárbaros
Marchando rumo ao oeste
Sioux apaches mohicans
Como uma antiga canção
Rikbatsa avá guarani
Morto com a terra
Dobrada sobre si
Vomitando sangue escuro
Sobre pés de olhos claros
Renascia vingante
Cavaleiro fantasma de olhos vermelhos
Peças negras sobre o corpo
Aço curtido couro
Coagulado
Sangue sobre os cabelos
Cobria longas distâncias
Asfálticas dissidências
À noite sob véus
Ferro e fogo
Luz nenhuma se escutava
Queimava lhe em chamas o peito
O ódio dos dias
Sangue coagulado sobre os negros
Longos cabelos
Plumas, uivos, assobios
Ceifeiro um a um caía
Das jovens dos carros dos dias
Cores não nada mais
Se cria vampiro nas tardes
De sol
Das chamas as dores no peito
Sangue coagulado sobre os cabelos
Nada diante dos olhos
Beijos de jovens cobria
O véu a vela a noite fria
Alívio das dores das vidas
Que nas chamas em seu peito
Ardiam

Campos de Partidas

não te encontro nos terminais do transcol sob meus pés quebradas pás de ventilador abafadas as inchadas feridas não respiram mais presas no interior de meus sapatos pés presos sob o peso de um corpo pálido magro negativo o saldo de sua conta bancária estradas correm levando carros para o norte nada mais encontro nos dias terminais os passos contidos sequer sei se ainda existem as estradas correm sem os pesados presos pés cortados tristes seguem os dias noites de neblina não encontram teu sorriso tímida trêmula sob os olhos de rômulo remo para longe desse vesgo rasgo de viscosa lama movediça noite dia escorrendo pelas vias de semáforos concretos e inchadas enxadas e pés de pás quebradas sob fétidas feridas palmilhas escondidas nos sapatos que suportam o peso da não ida o partido encontro desencanto da não despedida às pressas porque tudo é partida nos movimentos do ar dos carros sobre rodovias às recônditas picadas o voo da ave ferida parte da superfície branca pedaços cortantes de uma cascara rompida do ovo sai a lânguida serpente o filho que aos seus retorna reencontro nos campos de partida nos aeroportos nos portos carregados de mercadorias nos terminais do transcol jamais te encontrei perdido entre filas de pernas mais vivas do que as minhas férteis poesias mais belas ainda do que tuas pernas pendidas sobre as amuradas de inócuas avenidas divisoras de passagens em largas rodovias aí estão plantadas não sedem ao rígido impacto como sedia sedenta em teu sedentário sexo artístico de vagina fantasiada em virgens milhares de milhões de milhas percorridas entre o fálico desejo e tua fissura estática cálida calada em meio aos passos que levam a toda parte a mil partidas despedidas coitos já nem sei mais recorro à mão amiga e a outras tão amigas quanto a destra e a sinistra perdeu-se a conta o canto de sereia cuja concha é morada é armadilha amordaçada enfim eu viajante terno de pernas cortadas e sapato gasto milhares de horas de busca pelas ruas não pelas rodovias donde nunca fruístes te moves de outra maneira pelo movediço charco repleto de velas amarradas de moscas investindo sobre meu corpo magro apático
coberto de lesmas de lesmolisas caracoleando as calçadas da lama de porcelanas sujas onde encontro o descanso das pás quebradas sob meus pés de inchadas feridas

Da calma desses olhos

Da calma desses olhos luz
Miragens perspicazes dentre a paisagem concreta
De obras urbanas
Interrompidas avenidas à sombra lânguida de postes pendentes
Paz
As veias se abrem para a passagem desses anseios
Desejos simples
De não complicações
Vontades voláteis de elementar alado
Miríades de versos livres
No mover de tais pernas braços e cabelos
Faz-se dona da rua
Dos desejos alheios das libertinas ninfetas
Tudo
Desmancha ao teu encontro para refazer-se leve
Toda a vida
Vida inteira no colorido de aguadas leves nebulosas
Fuligem que escapa à chaminé das usinas
E se espalha leve
Aérea
Penetrando casas pátios
Pulmões poluídos por cigarros e tantos fumos outros fuligem
Escapa contudo quando quase tocada
Desses passos verso livre
A timidez ante a face do pecado
E transpira veias velas abertas
Em portos à beira mar
À calma desses olhos luz

Acossado

Corre!
Passos pernas
Angústias no bojo dos dias
Dos sonhos
Nas noites perdidas
Tudo em sentido oposto
Embaça passando depressa
Dos braços
Do dorso
Angústias
Escorrem nos passos das pernas

Em fuga aéreo escapa
Por entre os dedos
Soluços
Há saída
E se esvai
Tão seguramente lento
Pra quem olha à distância

Em marcha deixa-se parte
De tudo o que foi morada
Levando consigo adiante
Somente o que se perscruta
Da porta aponta
Passagens
Permite prosseguir
Perseguir outros poemas
Outros verbos que não esses
Poetizar noites
Pequenas

De bares e bebedeiras
De beijos em jovens ninfetas
Cansadas mulheres
Modernas ou saudosistas
Rapazes
Senhores e senhoras
O espetáculo termina
Mas as cortinas se abrem
Para o amanhã

Foge!
O cansaço dos dias
Remói
Erros berros
Carros sendo guinchados
Para pátios automotivos
Na forma da lei
A cidade segue viva
Máquina pulsante
Engrenagens de concreto
Girando sob a luz morna
De uma antiga lua nova

A noite liquidada
Em garrafas de conversas
Territórios nomeados
E posseiros em fuga
As porcelanas tremem
Ao som do felino salto
À noite todos os gatos são pardos
Todos os pardos são pretos
E todo preto é suspeito

Cães choramingam à portas de pet shops
Vidros vitrines
Câmeras de vigilância
Manequins esperam inquietos
À espera das estações
Nas calçadas se amontoam
Bêbados diários de luzes neon
E viciados nas sarjetas
Rodeando carros velhos e novos
Nada mais que pedra e pó
Nos porta-luvas fechados
Diálogos vãos
Perdidos os interesses
Até a lua, arredia, se oculta
Para não mais voltar

Em toda fuga há uma busca

Notívago

Passarelas derrubadas
Pontes ruíram sobre o rio Doce
Estátuas sob bosta de pombos
Sequer escutam os motores das máquinas
Incessantes automovem-se
Pelos caminhos de asfalto

Passados os dias
São contadas histórias
De dias, esses
Passado
Amontoando palavras sobre verdades e fatos
Nostálgicos
Leitores desconfiados desfiam
Outras verdades

Dos tambores de pele
Não se escuta um toque

Rédeas soltas
O arreio atado aos versos
Na noite menina os rios se chocam
Tímidos lábios sulcando outros lábios
De corpos promíscuos
Vívidos, moldados
Pela injúria dos dias
Passados

Alcoólicos verbos escapam
Maldizem a deus e à propriedade privada
Cruéis brincriações
Fala-se do que pode
Jamais do que se deve
Ou, quase nunca
Arrastadas as redes fogem
Para morrer na areia da praia
Os belos, afogados
Peixes

Dos tambores de pele
Não se escuta um toque

Apertam-se as rédeas
Há paus e bocetas nas ruas
Descalças
Sem rostos bonitos
Maquilagem, artimanhas
Tinta para cabelos ou edulcorantes
Não há presuntos e frangos
Apodrecidos nos pães
Resta a pele rija
Do desejo insaciado
De toda uma existência
Mofados sobre as calçadas
Ébrios sorrisos brotam
Dos aluntares
Vagantes
À mesa de seus bares
Ecoam tiros, poemas
E a Lua
Prisioneira de idílios
Indiferente revela
Dolorida luz prateada
Que os tornam quase
Divinos

Mas dos tambores de pele
Não se escutará, sequer
Um toque

Fílmico

Derramados os ponteiros sobre a mesa
Costuramos a neblina das marés
Aos pensamentos rosados
Das tardes poentes
Insulares
Quatro de paus e pedras no caminho
Ilusionamo-nos em caixas de sonhos
Com feixes de luzes coloridas
Às costas do cansaço
Engolidos pelo destino
Que não mais guarda a cantiga de roda
Rodamos a ciranda de coletivas roletas
Das avenidas repletas
De motivos vãos dos edifícios
Perseguindo o consumo dos dias
Cobrindo de anseios criados
Ficcionais sonhos meninos

Relativerdades

As ganas se perdem com os fracassos
Grandes amores com outros ainda maiores
As modas se refazem com a mudança de estações
Mas na fome não há tendências
Pouco importa se o feijão está por baixo
Ou por cima do arroz
Nas camas, pratos, prateleiras
Ficções criadas em bancos de igrejas
Escritórios bancários e mesas de bar
Mas verdades são relativas
São como o vômito contrariado
De quem bebeu com o copo
Sem beber com a índole
E lagrimam derramadas por amor
Pois mais valia a vida em tempos
Que amar era coisa perigosa
Sendo hoje coisa estúpida
Assim nos resta viver

Silêncios

Te encontro sem pernas sobre um plástico mundo
No entanto caminhas
Arrastando teu corpo ferido sobre as feridas de um solo sujo
Bebes a água imunda dos lamaçais e mangues
Onde caranguejos mecânicos lhe sobem pelos cabelos

Rompida a noite sangrenta
Ventres repletos de vermes se ocultam sob viadutos
Não há motores
Sequer ruídos
Do roçar dos véus sobre a face dos mortos

Busco ainda o que lhe dê sentido
Náuseas gritos choros de fetos paridos nos esgotos
Não há flores
Tulipas e tertúlias ao entardecer amável
Vive apenas o silêncio
Do instante que precede o início de outro movimento