Acossado

Corre!
Passos pernas
Angústias no bojo dos dias
Dos sonhos
Nas noites perdidas
Tudo em sentido oposto
Embaça passando depressa
Dos braços
Do dorso
Angústias
Escorrem nos passos das pernas

Em fuga aéreo escapa
Por entre os dedos
Soluços
Há saída
E se esvai
Tão seguramente lento
Pra quem olha à distância

Em marcha deixa-se parte
De tudo o que foi morada
Levando consigo adiante
Somente o que se perscruta
Da porta aponta
Passagens
Permite prosseguir
Perseguir outros poemas
Outros verbos que não esses
Poetizar noites
Pequenas

De bares e bebedeiras
De beijos em jovens ninfetas
Cansadas mulheres
Modernas ou saudosistas
Rapazes
Senhores e senhoras
O espetáculo termina
Mas as cortinas se abrem
Para o amanhã

Foge!
O cansaço dos dias
Remói
Erros berros
Carros sendo guinchados
Para pátios automotivos
Na forma da lei
A cidade segue viva
Máquina pulsante
Engrenagens de concreto
Girando sob a luz morna
De uma antiga lua nova

A noite liquidada
Em garrafas de conversas
Territórios nomeados
E posseiros em fuga
As porcelanas tremem
Ao som do felino salto
À noite todos os gatos são pardos
Todos os pardos são pretos
E todo preto é suspeito

Cães choramingam à portas de pet shops
Vidros vitrines
Câmeras de vigilância
Manequins esperam inquietos
À espera das estações
Nas calçadas se amontoam
Bêbados diários de luzes neon
E viciados nas sarjetas
Rodeando carros velhos e novos
Nada mais que pedra e pó
Nos porta-luvas fechados
Diálogos vãos
Perdidos os interesses
Até a lua, arredia, se oculta
Para não mais voltar

Em toda fuga há uma busca

Um comentário:

  1. "Em toda fuga há uma busca". Uma frase que valeria pelo poema todo, se o caminho percorrido por este não fosse magistral! Abraços, meu caro Diego!

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