Notívago

Passarelas derrubadas
Pontes ruíram sobre o rio Doce
Estátuas sob bosta de pombos
Sequer escutam os motores das máquinas
Incessantes automovem-se
Pelos caminhos de asfalto

Passados os dias
São contadas histórias
De dias, esses
Passado
Amontoando palavras sobre verdades e fatos
Nostálgicos
Leitores desconfiados desfiam
Outras verdades

Dos tambores de pele
Não se escuta um toque

Rédeas soltas
O arreio atado aos versos
Na noite menina os rios se chocam
Tímidos lábios sulcando outros lábios
De corpos promíscuos
Vívidos, moldados
Pela injúria dos dias
Passados

Alcoólicos verbos escapam
Maldizem a deus e à propriedade privada
Cruéis brincriações
Fala-se do que pode
Jamais do que se deve
Ou, quase nunca
Arrastadas as redes fogem
Para morrer na areia da praia
Os belos, afogados
Peixes

Dos tambores de pele
Não se escuta um toque

Apertam-se as rédeas
Há paus e bocetas nas ruas
Descalças
Sem rostos bonitos
Maquilagem, artimanhas
Tinta para cabelos ou edulcorantes
Não há presuntos e frangos
Apodrecidos nos pães
Resta a pele rija
Do desejo insaciado
De toda uma existência
Mofados sobre as calçadas
Ébrios sorrisos brotam
Dos aluntares
Vagantes
À mesa de seus bares
Ecoam tiros, poemas
E a Lua
Prisioneira de idílios
Indiferente revela
Dolorida luz prateada
Que os tornam quase
Divinos

Mas dos tambores de pele
Não se escutará, sequer
Um toque

Um comentário:

  1. Meu caro Diego, não conhecia seu espaço e passo a acompanhá-lo aqui! Estou fã de seus poemas! Abraços, Lucian!

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