Cereja

Ela olha séria
Vítima
Diz que sofreu injúrias
Abandono violações
Não se questiona um momento
Sequer
Perde-se nas frases feitas
Por si mesma
Quer ser
Quer ter
O que quer que seja
Apertando os dentes enfrenta
As luas
As noites escuras
Campos de corujas não mais
Cabelos ao vento
Nem pensar
Mascate das matinais horas
Não se perde no caminho
Nunca
O encontrou
Cedo
Ou tarde demais

O Caçador

Para Fenris Khefferos

Nada diante dos olhos
A noite como véu cobria
Cores carros vida
Carinho de mão amiga
E beijos de jovens moças
Tudo fora do eixo
Movia-se no sentir
No ressentir tantas ausências
Das surras risos de homem
Os de mulher lhe feriam os ouvidos
A turma seguia patrulhando as ruas
Mocinhos e bandidos
Horda de infantes bárbaros
Marchando rumo ao oeste
Sioux apaches mohicans
Como uma antiga canção
Rikbatsa avá guarani
Morto com a terra
Dobrada sobre si
Vomitando sangue escuro
Sobre pés de olhos claros
Renascia vingante
Cavaleiro fantasma de olhos vermelhos
Peças negras sobre o corpo
Aço curtido couro
Coagulado
Sangue sobre os cabelos
Cobria longas distâncias
Asfálticas dissidências
À noite sob véus
Ferro e fogo
Luz nenhuma se escutava
Queimava lhe em chamas o peito
O ódio dos dias
Sangue coagulado sobre os negros
Longos cabelos
Plumas, uivos, assobios
Ceifeiro um a um caía
Das jovens dos carros dos dias
Cores não nada mais
Se cria vampiro nas tardes
De sol
Das chamas as dores no peito
Sangue coagulado sobre os cabelos
Nada diante dos olhos
Beijos de jovens cobria
O véu a vela a noite fria
Alívio das dores das vidas
Que nas chamas em seu peito
Ardiam

Campos de Partidas

não te encontro nos terminais do transcol sob meus pés quebradas pás de ventilador abafadas as inchadas feridas não respiram mais presas no interior de meus sapatos pés presos sob o peso de um corpo pálido magro negativo o saldo de sua conta bancária estradas correm levando carros para o norte nada mais encontro nos dias terminais os passos contidos sequer sei se ainda existem as estradas correm sem os pesados presos pés cortados tristes seguem os dias noites de neblina não encontram teu sorriso tímida trêmula sob os olhos de rômulo remo para longe desse vesgo rasgo de viscosa lama movediça noite dia escorrendo pelas vias de semáforos concretos e inchadas enxadas e pés de pás quebradas sob fétidas feridas palmilhas escondidas nos sapatos que suportam o peso da não ida o partido encontro desencanto da não despedida às pressas porque tudo é partida nos movimentos do ar dos carros sobre rodovias às recônditas picadas o voo da ave ferida parte da superfície branca pedaços cortantes de uma cascara rompida do ovo sai a lânguida serpente o filho que aos seus retorna reencontro nos campos de partida nos aeroportos nos portos carregados de mercadorias nos terminais do transcol jamais te encontrei perdido entre filas de pernas mais vivas do que as minhas férteis poesias mais belas ainda do que tuas pernas pendidas sobre as amuradas de inócuas avenidas divisoras de passagens em largas rodovias aí estão plantadas não sedem ao rígido impacto como sedia sedenta em teu sedentário sexo artístico de vagina fantasiada em virgens milhares de milhões de milhas percorridas entre o fálico desejo e tua fissura estática cálida calada em meio aos passos que levam a toda parte a mil partidas despedidas coitos já nem sei mais recorro à mão amiga e a outras tão amigas quanto a destra e a sinistra perdeu-se a conta o canto de sereia cuja concha é morada é armadilha amordaçada enfim eu viajante terno de pernas cortadas e sapato gasto milhares de horas de busca pelas ruas não pelas rodovias donde nunca fruístes te moves de outra maneira pelo movediço charco repleto de velas amarradas de moscas investindo sobre meu corpo magro apático
coberto de lesmas de lesmolisas caracoleando as calçadas da lama de porcelanas sujas onde encontro o descanso das pás quebradas sob meus pés de inchadas feridas

Da calma desses olhos

Da calma desses olhos luz
Miragens perspicazes dentre a paisagem concreta
De obras urbanas
Interrompidas avenidas à sombra lânguida de postes pendentes
Paz
As veias se abrem para a passagem desses anseios
Desejos simples
De não complicações
Vontades voláteis de elementar alado
Miríades de versos livres
No mover de tais pernas braços e cabelos
Faz-se dona da rua
Dos desejos alheios das libertinas ninfetas
Tudo
Desmancha ao teu encontro para refazer-se leve
Toda a vida
Vida inteira no colorido de aguadas leves nebulosas
Fuligem que escapa à chaminé das usinas
E se espalha leve
Aérea
Penetrando casas pátios
Pulmões poluídos por cigarros e tantos fumos outros fuligem
Escapa contudo quando quase tocada
Desses passos verso livre
A timidez ante a face do pecado
E transpira veias velas abertas
Em portos à beira mar
À calma desses olhos luz