Passados


O tempo para quando se espera
Aí não há tempo
Há o que for
Pensamentos longos
Palavras perdidas
Nos labirintos da memória
Insatisfações

O anelo está em si
No ser que deseja
Na temporalidade do querer
Seja o que for
Espera-se o fim
Da espera
Satisfação

Alheios instantes seguem
Ponteiros girando incessantes
E ao que foi feito
Sentido no próprio
Desejo satisfeito
Consome o prazer do gozo
Seja qual for

O tempo se cria do que passa
De passos
Pegadas na areia da praia
Ou qualquer outra metáfora
Criamos o desejável
E o desprazer da ânsia
Por isso corremos
Seja quem for
Para alcançar-se
Satisfeito

Dos passos criamos tempo
E este é todo apressado
Vivendo de anseios frustrados
Momentos de espera
ou gozo
Seja o que for
Fomos
E assim estamos
Passados

Mandala

Parte da terra essa coisa toda
Sementes féculas e florações
Parte da água também
Fluidos de saliva e suor
Hormônios e almíscar

Outro dia vi
O céu chovendo terra
Agitada pelo vento
Derrubando árvores

Que terra é essa que repele
O que brota dessa terra outra?

Do encontro entre água e terra
Sinto o suave
A argila criando dedos
Curvas vivas de massa úmida
Gerando desejáveis deuses
Amantes construídos com argila e fogo
Que de águas e terras vindos
Arrebatam poderosos
De nossas vistas o sol
Da terra se lhes convém

Acho que parte do fogo essa coisa toda
Nossas moradas incendiadas
Massa ígnea fluída
Como a água que, artesã
Envolve a terra entre os dedos
E estes desaparecem cobertos
Pela fúria dos vulcões

Incendiados
Somos terra e água
E cinzas arrastadas pelo vento
Terra que sobe ao céu
Para depois descer
Devastadora como as paixões que lemos
Nos livros e nos poemas

Sim
Parte da terra essa coisa toda

Ventania

As ruas foram varridas por revoltados ventos
As asas quebradas dos mal fadados pássaros
Contaram-me sobre o que não pôde ter sido
Tessituras repletas de buracos
Maltrapilhos encontrados na perdição de dias outrora marcados
Nada a ver com o que não se esperava
Mas a espera
Longa caminhada
Não me levaram à minha mesma casa
Às mesmas existências nossas
Ao revés
Revi tudo abandonado
Desabadas prateleiras da associação de artesãos
Das aveludadas salas de espera
Dos cinemas e teatros
Que não se associam aos artesãos das praças
Aos perdidos caminhantes das estradas de asfalto
Repletos de berlugas e piolhos sobre suas aéreas
Cabeças
Perdi meus sapatos e caminhei descalço
Velhos ventos soprando ruínas
Desencontros compartilhados por frustrações arredias
Decepadas propostas
Decapitadas falas
Fálicas falácias de contrariadas vaginas
Arrancadas as arvores de uma geração falida
Passada
Calças ruas calçadas repletas de sequidão
Cruzada por pés descalços
O peso dos dias sobre os maltratados ombros
Postos à lixeira de um progresso armado
Sonhos
Arames farpados ao redor dos anseios desconhecidos
Casa de marimbondo sobre os maracujás maduros
Ceifa de soja agrária nos envenenados campos
Coitos desenfreados com lágrimas nos olhos
Pelas borboletas mortas
Pelo alvo perdido
Nas labirínticas ruas dos risos inalcançados

Perdição

Nos perdemos no óbvio
Das salas de espera
E em horas extras que tomam
Muito mais
Que horas extras

Nos movemos mórbidos sobre as avenidas
Empilhando desejos
Andar por andar
Em apertadas caixas de ilusão

Como lesmas que se arrastam
Pagando uma vida inteira
O peso de sua concha

Conduzindo o tempo sobre as horas dos dias
Com enlatados egos comprados
Nas vitrines dos desejos formatados

Não vemos porque estamos cegos
Levando os olhos nas carteiras
E à luz do sol nos debatemos
- Irônicos morcegos

Espalhamos sentidos ao que quer que seja
Vetorizados os anseios
Deificamos escarros, esporros
Massa hercúlea de frustrações

De não sermos nunca as vidas
Das novelas e revistas
Incessantemente consumidas
Doze meses por dia

Canto ao Jovem Pound

Já celebrei mais de três céus
Em mais de três oceanos
E digo: nada é igual
Gaivotas e andorinhas
Nuvens de chuva ou sol
Mudam de cor com o tempo
As conchas e os caracóis
Mulheres não há iguais
Bicos de peito e manhas
Pelos na pele
Encontros
Desejos, os mais diversos
E há muito mais que três cidades
Ou três cores de olhos
Rosados, rubros e negros
Lábios grandes e pequenos
Inferno purgatório e paraíso
É pouco para um latino Virgílio