Das patologias e outras doenças

A tosse insistente me fez acordar às 6h30 para tomar o xarope expectorante de acebrofilina e o antibiótico receitado na semana anterior por causa da sinusite. Aproveitei e tomei um pequeno antialérgico e um omeprazol, pra que os demais comprimidos não despertassem novamente minha gastrite. Deitei tentando me esconder do mundo dia, não que sentisse qualquer mal-estar físico, mas porque queria me permitir meia hora a mais debaixo do edredom. Pouco depois acordei assustado com o celular que tocava ao meu lado. Luci ligava para me desejar um bom dia, ou pra me contar as últimas como fazem os casais. Olhei a hora, 9h21. Pigarreei e havia só um cisco de voz. Atendi com a voz rouca. A dela também não parecia das melhores. Lhe disse que sentia taquicardias, talvez pelo susto do toque do telefone, talvez pelos remédios que eu havia tomado horas antes ou quem sabe por algum mal oculto alojado em meu miocárdio, afinal, meu pai é cardíaco, o dela também e estavam se tornando frequentes essas taquicardias. Outro dia, após uma trepada, senti uma alteração nos batimentos do coração que poderia muito bem ser fruto de uma arritmia ou mesmo de um sopro. Meu coração bate suspirando, disse a ela na ocasião.

Luci me disse ao telefone, sem muita paciência, para procurar um cardiologista na clínica social de Laranjeiras e desabafou sobre sua falta de tempo para terminar sua dissertação de mestrado, do prazo que estava se esgotando, do tempo que ela perdia de casa até a escola onde trabalha e da inflexibilidade de sua diretora com seus atrasos frequentes. Acredita que ela me deu uma falta porque eu faltei anteontem para levar Bia no médico, me disse. Bia era sua filha que tinha quatro anos de idade e estava com uma infecção de ouvido. Coisa de criança. Mas de fato notei que Luci não estava muito paciente naquele dia, nem nos dias anteriores. Me sentei na cama e lhe disse que teríamos um dia melhor hoje. Ela me respondeu descrente que sim. Desligamos.

Fui para a cozinha fazer um café. Já passava das dez da manhã. Exitei um pouco antes de acender um cigarro, mas acabei cedendo. Devia cuidar melhor da minha gripe alérgica. Enquanto bebia meu café sentado no sofá, onde ainda batia um pouco de sol, pensava sobre os problemas de Lucy e de como poderia melhorar seu dia, então observei que minha pele estava precisando de um creme dermatológico. Detesto cremes e pomadas, mas a maldita pitiríase rósea havia voltado e as marcas da herpes-zóster ainda não haviam desaparecido da minha coxa esquerda. Encontrei um hidratante caro que usei após a retirada de dois nevos melanocíticos nos pés dois meses antes e espalhei sobre as pernas e braços ressecados.

Senti uma pontada de tristeza, uma sensação de ausência ou algo do tipo. Me arrumo e saio de casa. Eu estava na farmácia do trevo de Fradinhos comprando um spray de própolis, um soro nasal e alguns preservativos com design que eu ainda não havia experimentado quando Lucy me liga novamente. Era 11h21 e achei muita coincidência. Vinte e um... Ela me disse que estava louca, Bia enrolava para tomar banho e não queria almoçar e que ela acabaria se atrasando mais uma vez para chegar a tempo em Nova Almeida e que a coordenadora da escola já estava de marcação com ela. No meio desse turbilhão me veio à mente uma frase que às vezes eu utilizo, quase como um mantra e que muitas vezes funciona e quando percebi já estava dizendo a Lucy ao telefone "Toda a alegria do mundo está nos seus olhos". Faço isso às vezes. Crio frase e fico me convencendo delas para deixar meu dia melhor. Lucy ficou puta e disse que minha vida era muito fácil e que, além do mais, ela era míope e não via porra de alegria nenhuma na merda do mundo. Beijo. Tchau! Desligou. Vinte reais e noventa e sete centavos, disse a balconista da farmácia com cara de Rainha do Rodeio de Brejetuba. Entreguei a ela R$21,00. Não houve troco. Mais uma vez vinte e um...

Sai da farmácia, apliquei o própolis na garganta, o soro nasal onde é de costume e fui andando para o ponto de ônibus meio puto pelo fato da Lucy ter desligado na minha cara. Auto-sugestão... comigo sempre funciona. Por fim relevei, mas se as pessoas tentassem perceber que "toda a alegria do mundo está nos seus olhos", acho que teriam uma vida muito mais saudável e feliz. Acendi um cigarro e quando dava o primeiro trago passa o meu ônibus.

Um comentário:

  1. Cataflan

    A poesia vive com febre e dor de garganta

    A poesia é uma criança.

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