Devoção

A tarde cai em noite chuvosa
Gargantas degoladas povoam telas azuis
Uma exposição de espelhos auto-refletidos
Como símios descontentes
Lançam merda aos que observam
Por detrás das grades das jaulas
Às quais muitos se encerram
Mentes postas a mesa
Iguarias para os abutres encefalófagos
O consumo dos dias
Os seios na televisão
Os jogos de videogames
Aos sábados, ir ao shopping com a família
Aos domingos, só Deus sabe
Às segundas o inevitável acerto de contas
Sem esquecer a conta do médico
de próstata e mama
A desvalorização crônica de sua aposentadoria
A degradação do meio ambiente
Que aos seus extremos já degradaram
A vida está por um fio
De fibra ótica que cega
Para o colorido dos dias
Ao Deus dará esperamos
A velhice com Alzheimer
Para que não lembremos todo o lixo que comemos
Para que não choremos toda a vida que cagamos

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