De grilos e borboletas

Acertamos os passos
Caminhos traçados em papel de pão
Baseados em mapas incertos
Desenhados a quatro mãos
Lembro até de ficar excitado com a ideia
De sairmos por aí
Ver as pessoas
Falar com línguas que não conhecemos
Deu até vontade de sair lambendo o mundo
Só pra sentir o gosto
Colecionar sabores
Pra temperar nossas carnes
E quem sabe até flagrar
Dois grilos se amando
No gineceu de uma papoula
Em jardins com a idade do mundo
Ou uma velha senhora esmolando sob uma árvore
Tão velha quanto nós dois juntos
E embriagado dormir
Sobre o verde dos seus olhos
Sob a lua crescente
Com borboletas girando
Da efervescência do meu estômago
Até o céu da sua boca

Poemazia

As unhas roídas
Sagram
Os cabelos que caem
Tombam
Sobre meus ombros
Nervos
Inflamados e tensos
Dias
Escoando em tarefas
Inférteis
Versos
De um poemazia

Viagem

Caia na estrada
Sempre que puder
A passagem é um dedo
Esticado como a faixa
Que separa os que vão
Dos que vão pro outro lado

Caia na estrada
De mochila, leve
A cabeça fria
E o olhar sedento
De luz vida poesia
A qualquer distância

Em qualquer casa um abrigo
Pros tempos tempos de chuva
E um cobertor a mais
Naquela dose de cana
E vilas
E vidas
E sorridos tantos

A passagem é um dedo esticado
Como a faixa que separa
Aqueles que vão
Dos que vão pro outro lado
Mas não ande na linha
Que o trem passa
Por cima

Solúvel

Nos dias frios deste inverno quente
Proliferam incertezas
Pelas sólidas vias
Nuvens brancas varrem
Amareladas verdades
De minha massa cinzenta
- Concreta imaterialidade
Consolidando projetos
Versos de afetos idos
Memórias de fatos mentidos
Em noites de sono alheio
Valorando pelos dias
Oito horas de atos fingidos
Cometendo o infanticídio
De debutantes desejos
Amarro-me à morada
Que preserva a inconsistência
De tantas ideias escritas
Em páginas publicadas
E me pergunto agitado
Das problemáticas tantas
De questionáveis verdades
Solúveis constatações
A respeito dos humanos
Em sua cruzada epopeica
De gozar seus orifícios
Assim as angústias passam
E se alojam em outras vidas
Passando pela minha
Como essas nuvens de inverno
Que desatinam mentes
Desfazem meu espírito
E já nem sei mais
Se questiono as verdades ditas
Projetando mentiras
Nessas sociais vivências
Sigo pedindo clemência
A essa mente inquieta
Que se espreme na matéria
Deste corpo constipado
Paradoxal realidade
De uma existência
Líquida

Descaminho

Nos caminhos decepados
Dias queimam sob sol de domingo
Luas frias colhem almas vadias
E pesados sobre o Aqueronte de asfalto
Grandes caminhões atropelam
Vidas sem moedas
Pra cruzar o rio

Proliferam cruzes ribeirinhas
Em cemitérios que abraçam rodovias
Que serpenteiam em uma dança maldita
Ao som zunido de automóveis brilhantes
Vaga-luzentes pelos escuros vazios
Dos decepados bosques de eucaliptos

E vão aflitos pelas negras vias
Guilhotinados povos sem destino
Trilhando às margens dos cansados trilhos
Buscando longe
Na garoa fina
Distantes fórmulas de descaminho


Paletas

Se em gris, rubias ou qualquer ocre em flor
Inexplicáveis formas de terras em plantas nascem
Tantas e deste tanto muitos ramos de verde ser
Sem afrontar às existências outras
- Manifestações de Um
Tão poucas
E tão todos
Que não se definem por regras linguísticas
Códices primários
Crendices populares ou qualquer fé de natureza aérea
Qualquer que seja o conhecimento puro
Colonizadas cartilhas ou definições
Psicopatológicas e protocientificistas
Protuberâncias racionais de modernas formulas de
Interligar as naturezas muitas
De matérias várias
Cuja aquarela de possibilidades
Se mumifica ao contato com o papel
Se modifica à contemplação do olhar
e mortifica-se ao se tornar verso

Uma preta

Uma preta atrás da porta
Aberta escura à direita
Encosta seu corpo branco
Sobre o meu
Corpo pulsante
Uma preta atrás da porta
À mostra seu dorso nu
Aberto às escuras deito
Sob seus pelos crespos
E encontro essa fêmea mulher
Quando miro em um espelho
Cobrindo cavalo a pelo
Cavalgante valete preto
Subo às transversais vias
De sua plumagem negra
Com curvas leves à esquerda
De seus impecáveis seios

Fluvial

Te enxergo por detrás
De embaçadas vidraças
Embarcações navegantes
Em naufragadas vagas
Mortas na areia
De nossa desgovernada praia
Emaranhadas em ondas
De tantos lençóis usados
Que em outras vidas eram
Cascas e mais cascas
De nossos corpos desnudos

Sinto os espaços deixados
Por teu corpo aventureiro
Desafiando correntes
Em teu veleiro urbano
Plantando hortas e orquídeas
Nestas ruas de guerrilhas
Somando perspectivas
De anárquicas conjecturas
Semeando delícias
Em pastos já tão pisados
Por reses desiludidas

Encontro pelos e passos
Nos morros e beiras
De rios inquietos
Que correm por ti
Fluentes
E me deparo comigo
Sentado à areia quente
Dobrando folhas e sonhos
Em brancos triviais barcos
De papel arrebatados
Por essas tuas
Correntezas

Das horas da noite

Perseguem os ponteiros
O que lhes é pedido
Atrás uns dos outros
Seguem os bezerros
Do pasto ao matadouro

O mato cresce alto
De cima para baixo
Caem os cabelos
E o inalcançável é atingido
Uma vez a cada volta
Vinte e quatro a cada dia

Onde tá que não vi?
Passou...
Rápido como capricho de criança
Como amor de moço
Com a própria infância

Morrem os amigos
Morremos com eles a cada dia
Trabalhado ou não
A cada noite...
Melhor estar de olhos abertos
Pra nem ver tempo passar
Com beijo, lua e poesia

Temporal

Me falta tempo...
Falta como se fugisse de mim
Como eu fujo de igreja
E de pegar ônibus lotado
E de atravessar a ponte
Porque toda travessia demanda tempo
E te digo: me falta tempo!

Escorre feito lágrima no meu rosto
Escorre entre meus dedos
e pelas minhas pernas apressadas
Sempre que lembro dos amores passados
- E eu amei muito...

Mas me falta tempo!
Sempre que vejo outras pessoas felizes
Com seus bolsos cheios de dias livres
Com seus dentes brancos de horas vagas
Com seus passos lentos
De quem volta do porto
E eu passo apressado
Inimigo das horas
Tento chegar na frente do relógio de ponto
Mas nunca consigo
Porque o tempo corre
De segunda a segunda
Quando tento sentar e ler
Ou escrever linhas
Do desejo e das frustrações
E as frustrações são inevitáveis!

Então desisto de perseguir
De correr como um maratonista
Atrás de algo que jamais para
Pois já se foram os dias em que o tempo parava
Para eu beijar as meninas e morrer de amor
Hoje em dia não se morre mais de amor
Hoje em dia não há mais tempo

Então abro a gaiola do rato
Que corre sem sair do lugar
E desisto do impossível
Para viver o improvável
Agora não há mais tempo
Somente mar e sol ou lua ou noite de estrelas
Agora só há flores e cervejas e carne de porco frita
E baseados para fazer dormir a manhã

E como quem mata Deus
Eu quebro meus relógios
Antes que o despertador toque
Pra que o sol não se levante
Pra que as flores do jardim não murchem
Pra que as lojas de conveniências não abram
Pra que os semáforos continuem sempre assim
Desligados