Uma preta

Uma preta atrás da porta
Aberta escura à direita
Encosta seu corpo branco
Sobre o meu
Corpo pulsante
Uma preta atrás da porta
À mostra seu dorso nu
Aberto às escuras deito
Sob seus pelos crespos
E encontro essa fêmea mulher
Quando miro em um espelho
Cobrindo cavalo a pelo
Cavalgante valete preto
Subo às transversais vias
De sua plumagem negra
Com curvas leves à esquerda
De seus impecáveis seios

Fluvial

Te enxergo por detrás
De embaçadas vidraças
Embarcações navegantes
Em naufragadas vagas
Mortas na areia
De nossa desgovernada praia
Emaranhadas em ondas
De tantos lençóis usados
Que em outras vidas eram
Cascas e mais cascas
De nossos corpos desnudos

Sinto os espaços deixados
Por teu corpo aventureiro
Desafiando correntes
Em teu veleiro urbano
Plantando hortas e orquídeas
Nestas ruas de guerrilhas
Somando perspectivas
De anárquicas conjecturas
Semeando delícias
Em pastos já tão pisados
Por reses desiludidas

Encontro pelos e passos
Nos morros e beiras
De rios inquietos
Que correm por ti
Fluentes
E me deparo comigo
Sentado à areia quente
Dobrando folhas e sonhos
Em brancos triviais barcos
De papel arrebatados
Por essas tuas
Correntezas

Das horas da noite

Perseguem os ponteiros
O que lhes é pedido
Atrás uns dos outros
Seguem os bezerros
Do pasto ao matadouro

O mato cresce alto
De cima para baixo
Caem os cabelos
E o inalcançável é atingido
Uma vez a cada volta
Vinte e quatro a cada dia

Onde tá que não vi?
Passou...
Rápido como capricho de criança
Como amor de moço
Com a própria infância

Morrem os amigos
Morremos com eles a cada dia
Trabalhado ou não
A cada noite...
Melhor estar de olhos abertos
Pra nem ver tempo passar
Com beijo, lua e poesia