Miocárdio

A arma apontada
É contra meu peito
À noite enquanto
Cantam as cigarras
O coração é arrancado
Olho o triste miocárdio
Nas mãos do cirurgião
Que o joga na lixeira
Pulsava até ontem
Foi parando
e parado ficou
Agora é só um buraco frio
Que tento esquentar com cigarros
E doses ardentes de conhaque
Que me queimam a garganta
E me dói forte na cabeça
Me fazendo lembrar que há outras dores
Além daquela de ausência
Que fez meu coração parar

O MENINO DOS LOBOS

poema psicanalítico


Livremente inspirado no caso clínico de Sergei Pankejeff analisado na obra de Sigmund Freud “História de uma neurose infantil” (1918)


Dorme no berço
A tarde quente
O suor cobre seus sonhos
Ardente a febre queima
Da urze roxeada
Ao pasto das ovelhas

De pé como a nogueira
Se faz o homem, fera
Desperto, abre a janela
O olho então espreita
Sete pares de olhos grandes
A devorar uma ovelha

Escorre sangue e o ventre
Se parte em mil quimeras
No campo verde há raposas...
A mão toca os desejos
E o olho abre as janelas
A lã tomba nos campos

Sob o frio do inverno
À noite não há gozo
Apenas a espera
E as uvas apodrecem
Antes da colheita

Deixe as vinhas ao sol
E à ama, os bons anseios
Quem sabe assim floresçam...
A passos largos segue
O dono da videira
Do sol somente o frio
Da poda, os maus receios

A cobra é destroçada
Por sua própria cauda
A casa é derrubada
Na busca pelo albergue
Distante da matilha
A raposa se perde

À sombra da alcatéia
O olho não repousa
E o lobo ataca o velho
Cegado por si mesmo
Arrasta-se o rei Édipo
Pelas ruas de Tebas

O velho sobrevive
E desprovido da cauda
Retorna o lobo à selva
O corpo decepado
À tarde queima em febre
E o leito se incendeia

Em meio ao pasto verde
Ovelhas mortas tombam
Tomadas pela peste