Sapê

Decepados os tormentos
Rebrotam cores das terras
Versos nas vidas
E nos pratos
Comida
A terra pede o amanho
Na roça canta o trabalho
E o muito por fazer
Não o fazer pro outro
Da cana, do café, do faxo
Fazer-se morto nos campos
Em meio a herbicidas
Formicidas
Fungicidas
Suicidas colheitas
Ou cozer a alma para tornar preto
O lenho
Nas fornalhas que queimam
As vidas no deserto verde
Preto é o homem
Da carvoaria
E seu destino imprensado
Entre as fileiras de desilusão
Destino de negro
Em mundo de branco
Pois destino de negro em mundo de negro
É ser criança
E brincar a brincadeira no tempo certo
É ser mulher
E criar-se mulher como quem inventa o mundo
É ser homem
Sem que pra isso
Seja preciso
Matar tudo que não seja
Homem

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