Bei.jo

Boca tem lábios dentes língua
Boca tem sorrisos
Línguas criam palavras
Línguas existem dentro das bocas
Palavras só existem fora das bocas
Beijo é mais que o encontro de duas bocas
Bei·jo (latim: basium)- substantivo masculino
Beijo é palavra
Em boca de homem e mulher
Beijo não tem sexo
Beijo pode ser sexo
Lambidas são beijos que nascem fora da boca
Línguas criam lambidas e beijos
Beijos e lambidas dizem mais que palavras

Múltiplos

Quero ser múltiplos
Não daqueles mínimos e comuns
Dos que nivelam por baixo
Que pensam que o comum
É igual, é uni, é mono
Que se encontram num denominador
Para dividir o que é equivalente

O comum multi, é poli, é pluri
Quero a multiplicação do ser
Do ver, do estar, do sentir
E de tantos outros verbos quanto possíveis
Na variação linguística
Da práxis
do existir

Respiremos os denominadores diferentes
Ouçamos as opções improváveis
Das múltiplas escolhas
Sem que haja gabarito oficial
A solução comum é mínima
É excludente
É enclausurante
É vestibular

Quero viver a desconstrução do léxico
A palavra que acaba de nascer
O sopro ao pé da orelha
Na cola que encontra o saber
E o ressignifica em cumplicidade
Em invenção criativa
Em passe de mágica

Não quero ser múltiplo no mínimo
Em arco-íris que só tem sete cores
Em pretos e brancos
Em rezas pros mesmos santos
Quero fazer juntinho
Com quem odeio
E ver que é bom
E dizer: amei!

Sejamos múltiplos
No per-mi-tir-se
No multiplicar a si
Para todos os elementos
Do conjunto Universo

RITALEE(na)

Aos 10 eu era hiperativo
Aos 20 psicodélico
Aos 30 neurótico anônimo
Será que chego aos 40
Neurótico e reconhecido?

Macumba

Sou preto latino
Gente dessa terra violada
Índio caboclo mestiço
Sou filho de tudo isso
Das veias abertas
De nuestra Latinoamérica
Da Pachamama, sou hijo-xamã
Sou ojubona de mim
Só mais um fruto
Do jardim plantado
Entre a mandinga dos pretos
E a puçanga dos índios

Há mar

Quando duas pessoas amam
Uma a outra
Há amor
Há dois
No mais
Há mais
Não é questão de números
É questão de amar

O Fauno

Desprovido de grandes crenças
Acredito em quase tudo
Nas cores do pôr-do-sol
Em pássaros dançando ao entardecer
Policiais violando as leis
E adolescentes se masturbando cheios de culpa
Acredito nas neuroses e nas prisões de ventre
No desejo e no ódio

Acredito que nas noites frias, fantasmas batam à porta das casas de sujeitos solitários
Eles crêem que sou solitário
Mas eu não deixo eles entrarem
As trancas da minha porta são tão fortes quanto as pregas do cú de um virgem
Dentro de meu castelo rolo no chão com a solidão
Igual a filhotes de cães que simulam lutas mortais com seus irmãos
Escuto música baixinho para não acordar os maus espíritos que embalei com canções de ninar
E tomo banho nu
Mostrando ao universo toda a beleza de sua criação
Me crendo galho nas árvores exuberantes das florestas tropicais onde fui parido

Acredito na felicidade
Dos cidadãos que passam em marcha
Com suas crianças para as escolas
Com seus temores para as igrejas
Com suas frustrações para o trabalho
E com suas contas a pagar, de volta para casa
Para os coitos diários desprovidos de paixão
Para as mentiras televisionadas que faz com que cada um se sinta melhor do que é
Mais honesto que o político corrupto, mais esperto que a protagonista da novela

Eu, que de nada desacredito
e desconfio de quase tudo
Sou o aluno dos meus filhos e o professor dos meus pais
Não me frustro, nem temo
Não moralizo ou me envergonho ou violo meu pudor com orgasmos fingidos
Eu copulo com cada cômodo de minha morada
Transo cada curva do meu corpo e cada orifício que tua língua seja capaz de pronunciar
Eu rezo para os deuses que inventei na manhã de ontem
Diante de altares construídos por minhas mãos
Sólidos como o tesão que ergue o pênis e enrijece os mamilos
Líquidos como a areia que escorre nas brechas das ampulhetas
Como a memória etérea dos tempos míticos e milagreiros

De ti, não desconfio de nada
Nem de tuas rezas, nem de teus pássaros engaiolados
Não desconfio de teus armários repletos de roupas
Nem dos teus planos de viagem nas férias
Nem da comida que enche tuas entranhas
Nem dos misteriosos conteúdos de tuas latas de lixo
Ou do sangue vermelho em tuas veias e artérias
Vermelho como o meu
Não desconfio de tuas alegrias tantas
Do prazer que tens a cada passo de teus dias
Tampouco me regozijo com tua infelicidade
E com os litros de coca-cola que bebes para dissolvê-la
Das vantagens que se espalham no ar
Sempre que abres tua boca de sorrisos brancos
Ou no odor de tuas axilas, que escondes com caros perfumes

Eu gozo em cada gota de suor cheirando a pelo de cabra
Em cada rastro de verdade presente em teus cabelos despenteados
Nas faixas brancas de suas estrias
E no calor que brota em teu ventre e sobe
Para queimar os nervos que te franzem os olhos
E explodir os pilares da civilização ocidental
Que impedem de dançar teus membros acorrentados