O Fauno

Desprovido de grandes crenças
Acredito em quase tudo
Nas cores do pôr-do-sol
Em pássaros dançando ao entardecer
Policiais violando as leis
E adolescentes se masturbando cheios de culpa
Acredito nas neuroses e nas prisões de ventre
No desejo e no ódio

Acredito que nas noites frias, fantasmas batam à porta das casas de sujeitos solitários
Eles crêem que sou solitário
Mas eu não deixo eles entrarem
As trancas da minha porta são tão fortes quanto as pregas do cú de um virgem
Dentro de meu castelo rolo no chão com a solidão
Igual a filhotes de cães que simulam lutas mortais com seus irmãos
Escuto música baixinho para não acordar os maus espíritos que embalei com canções de ninar
E tomo banho nu
Mostrando ao universo toda a beleza de sua criação
Me crendo galho nas árvores exuberantes das florestas tropicais onde fui parido

Acredito na felicidade
Dos cidadãos que passam em marcha
Com suas crianças para as escolas
Com seus temores para as igrejas
Com suas frustrações para o trabalho
E com suas contas a pagar, de volta para casa
Para os coitos diários desprovidos de paixão
Para as mentiras televisionadas que faz com que cada um se sinta melhor do que é
Mais honesto que o político corrupto, mais esperto que a protagonista da novela

Eu, que de nada desacredito
e desconfio de quase tudo
Sou o aluno dos meus filhos e o professor dos meus pais
Não me frustro, nem temo
Não moralizo ou me envergonho ou violo meu pudor com orgasmos fingidos
Eu copulo com cada cômodo de minha morada
Transo cada curva do meu corpo e cada orifício que tua língua seja capaz de pronunciar
Eu rezo para os deuses que inventei na manhã de ontem
Diante de altares construídos por minhas mãos
Sólidos como o tesão que ergue o pênis e enrijece os mamilos
Líquidos como a areia que escorre nas brechas das ampulhetas
Como a memória etérea dos tempos míticos e milagreiros

De ti, não desconfio de nada
Nem de tuas rezas, nem de teus pássaros engaiolados
Não desconfio de teus armários repletos de roupas
Nem dos teus planos de viagem nas férias
Nem da comida que enche tuas entranhas
Nem dos misteriosos conteúdos de tuas latas de lixo
Ou do sangue vermelho em tuas veias e artérias
Vermelho como o meu
Não desconfio de tuas alegrias tantas
Do prazer que tens a cada passo de teus dias
Tampouco me regozijo com tua infelicidade
E com os litros de coca-cola que bebes para dissolvê-la
Das vantagens que se espalham no ar
Sempre que abres tua boca de sorrisos brancos
Ou no odor de tuas axilas, que escondes com caros perfumes

Eu gozo em cada gota de suor cheirando a pelo de cabra
Em cada rastro de verdade presente em teus cabelos despenteados
Nas faixas brancas de suas estrias
E no calor que brota em teu ventre e sobe
Para queimar os nervos que te franzem os olhos
E explodir os pilares da civilização ocidental
Que impedem de dançar teus membros acorrentados