Epitáfio das boas amizades


- para Diego Barbosa, aos 14 anos de idade.


Lembro que um dia, quando era adolescente, percebi o quanto os bons amigos tornam-se mais importantes em nossas vidas do que a família. Na verdade, acabam se tornando uma família maior, unida por outros laços que não um ancestral comum ou a troca de fluídos corporais que geram descendentes.
Lembro que, muitas vezes, em diferentes momentos, com diferentes grupos de amigos, pensei na sorte que eu tinha em ter amigos tão bons. Tenho os melhores amigos do mundo, pensava.
As outras pessoas não tem amigos tão bons quanto os meus, pois os amigos das outras pessoas às vezes me tratam com indiferença, às vezes com falsidade, outras vezes com má fé, ou não se importam se suas ações irão me prejudicar em algo. Talvez por isso essas pessoas são amigas de outras pessoas e não minhas amigas. Muitas vezes vi os amigos das outras pessoas e pensei: como são pessoas desinteressantes ou desinteressadas. Meus amigos são as pessoas mais legais, inteligentes, críticas, aventureiras e leais que uma pessoa pode ter. Já os amigos das outras pessoas fazem sempre as mesmas coisas, com o mesmo grupo de pessoas e que, por sinal, não são minhas amigas, embora nos pareçamos em tantas coisas. Embora meu grupo de amigos se pareça com outros grupos de amigos em tantas coisas.
Os amigos das outras pessoas comportam-se como uma família com seu grupo de amigos. Hoje, eu olho de longe e penso nostálgico: como uma família... Acho que por isso os amigos das outras pessoas são amigos das outras pessoas e meus amigos são meus amigos. Para que cuidemos uns dos outros, como uma família. Para que tenhamos alguém para brigar e expurgar as verdades não ditas, mesmo que com meias verdades. Para que tenhamos alguém pra emprestar dinheiro, cuidar dos gatos quando for preciso viajar, viajar junto quando for preciso sair de si e ouvir ao telefone, horas a fio, quando a única coisa que precisamos é... falar. As pessoas que não são minhas amigas certamente fazem isso com seus amigos, assim como os meus amigos fazem comigo e por mim.
Por isso algumas pessoas são minhas amigas e outras não, mas, no fim das contas temos, todos e todas, os seus amigos e amigas e isso nos torna iguais. Isso torna o meu grupo de amigos apenas mais um grupo de amigos entre tantas outras pessoas que são amigas de outras pessoas. Mas não os torna menos importantes. Amigos são um presente, e como tal, nós raramente escolhemos. Eles chegam, a gente recebe. A gente chega, eles recebem. E com passar do tempo, umas pessoas se vão e outras chegam. Logo, aquele grupo, mesmo não sendo mais o mesmo, mesmo com pessoas novas, que há um par de anos não estava ali, segue compartilhando memórias, afetos, ressentimentos. Mesmo sem mim, ou você, segue multiplicando cumplicidade, alegrias, amor... Como uma família.

Hippie

Deveriamos todos ser índios, hippies, tribais
Deveríamos todos ser homem e mulher
Deveriamos ser outros e nós mesmos
Tudinho ao mesmo tempo
E em quantos espaços forem possíveis
Deveriamos todos ser fogo e água
Lua, Sol, Marte, Vênus e Mercúrio
Deveriamos todos ser terra
Barro moldável
Cerâmica, adobe, panelas do mangue
De Goiabeiras
Deveriamos todos ser mais
Do que Eu
Deveriamos todos ser Deus
Porque ninguém conhece o caminho da salvação
Porque ninguém sabe o que é
Democracia, socialismo, paraíso
Porque ninguém sabe...
Deveriamos todos aprender
Ser mais
Amor

Só mais um poema miserável

As escutas se fecham
As falácias revelam-se
Sobra piedade
Para os pretos pobres favelados
Crianças meninas violadas
Mulheres travestis espancadas
Sobra piedade
Cantamos
A miséria da filosofia
O espanto, a tristeza e a paixão
A desgraçada paixão que sufoca
Até degolar
As escutas se fecham
E cantamos
Poetizar misérias é pequeno demais
Vivê-las é condição
Rimos?
Não faltou cerveja nos copos
Nem golpes e porretes
Na cabeça das mulheres pretas
E dos jovens periféricos
As falácias revelam-se
O rei, o bispo e o cavalo
A rainha decapitada
E as duas torres
Todos se escondem atrás dos peões
Que erguendo bandeiras avançam
Passo a passo
Para o desfiladeiro
A fartura é uma benção de Deus
Que passa sem ser notada
Do contracheque mirrado
Para as contas e celeiros
Dos donos do tabuleiro

bala soft

Vira presunto
Nos becos da favela
Quem fala muito

A Luz

Que força é essa
Que vive em meu peito mas não conheço
Que derruba paredes para construir
Que sacode o corpo, muda as cores nos olhos
Para um mundo arco-íris
Que força é essa
Que fala comigo...
Mas não compreendo
Então apenas escuto
E rio
Um riso criança guardado há milhares de anos
Em inúmeras existências
Um riso milagre, um riso verdade
Que transforma o corpo, que sacode o mundo
Um riso que me liga à origem de tudo
Quando disse Deus: haja luz!
E a luz brilhou...
Nesse momento Deus riu