Epitáfio das boas amizades


- para Diego Barbosa, aos 14 anos de idade.


Lembro que um dia, quando era adolescente, percebi o quanto os bons amigos tornam-se mais importantes em nossas vidas do que a família. Na verdade, acabam se tornando uma família maior, unida por outros laços que não um ancestral comum ou a troca de fluídos corporais que geram descendentes.
Lembro que, muitas vezes, em diferentes momentos, com diferentes grupos de amigos, pensei na sorte que eu tinha em ter amigos tão bons. Tenho os melhores amigos do mundo, pensava.
As outras pessoas não tem amigos tão bons quanto os meus, pois os amigos das outras pessoas às vezes me tratam com indiferença, às vezes com falsidade, outras vezes com má fé, ou não se importam se suas ações irão me prejudicar em algo. Talvez por isso essas pessoas são amigas de outras pessoas e não minhas amigas. Muitas vezes vi os amigos das outras pessoas e pensei: como são pessoas desinteressantes ou desinteressadas. Meus amigos são as pessoas mais legais, inteligentes, críticas, aventureiras e leais que uma pessoa pode ter. Já os amigos das outras pessoas fazem sempre as mesmas coisas, com o mesmo grupo de pessoas e que, por sinal, não são minhas amigas, embora nos pareçamos em tantas coisas. Embora meu grupo de amigos se pareça com outros grupos de amigos em tantas coisas.
Os amigos das outras pessoas comportam-se como uma família com seu grupo de amigos. Hoje, eu olho de longe e penso nostálgico: como uma família... Acho que por isso os amigos das outras pessoas são amigos das outras pessoas e meus amigos são meus amigos. Para que cuidemos uns dos outros, como uma família. Para que tenhamos alguém para brigar e expurgar as verdades não ditas, mesmo que com meias verdades. Para que tenhamos alguém pra emprestar dinheiro, cuidar dos gatos quando for preciso viajar, viajar junto quando for preciso sair de si e ouvir ao telefone, horas a fio, quando a única coisa que precisamos é... falar. As pessoas que não são minhas amigas certamente fazem isso com seus amigos, assim como os meus amigos fazem comigo e por mim.
Por isso algumas pessoas são minhas amigas e outras não, mas, no fim das contas temos, todos e todas, os seus amigos e amigas e isso nos torna iguais. Isso torna o meu grupo de amigos apenas mais um grupo de amigos entre tantas outras pessoas que são amigas de outras pessoas. Mas não os torna menos importantes. Amigos são um presente, e como tal, nós raramente escolhemos. Eles chegam, a gente recebe. A gente chega, eles recebem. E com passar do tempo, umas pessoas se vão e outras chegam. Logo, aquele grupo, mesmo não sendo mais o mesmo, mesmo com pessoas novas, que há um par de anos não estava ali, segue compartilhando memórias, afetos, ressentimentos. Mesmo sem mim, ou você, segue multiplicando cumplicidade, alegrias, amor... Como uma família.

Hippie

Deveriamos todos ser índios, hippies, tribais
Deveríamos todos ser homem e mulher
Deveriamos ser outros e nós mesmos
Tudinho ao mesmo tempo
E em quantos espaços forem possíveis
Deveriamos todos ser fogo e água
Lua, Sol, Marte, Vênus e Mercúrio
Deveriamos todos ser terra
Barro moldável
Cerâmica, adobe, panelas do mangue
De Goiabeiras
Deveriamos todos ser mais
Do que Eu
Deveriamos todos ser Deus
Porque ninguém conhece o caminho da salvação
Porque ninguém sabe o que é
Democracia, socialismo, paraíso
Porque ninguém sabe...
Deveriamos todos aprender
Ser mais
Amor

Só mais um poema miserável

As escutas se fecham
As falácias revelam-se
Sobra piedade
Para os pretos pobres favelados
Crianças meninas violadas
Mulheres travestis espancadas
Sobra piedade
Cantamos
A miséria da filosofia
O espanto, a tristeza e a paixão
A desgraçada paixão que sufoca
Até degolar
As escutas se fecham
E cantamos
Poetizar misérias é pequeno demais
Vivê-las é condição
Rimos?
Não faltou cerveja nos copos
Nem golpes e porretes
Na cabeça das mulheres pretas
E dos jovens periféricos
As falácias revelam-se
O rei, o bispo e o cavalo
A rainha decapitada
E as duas torres
Todos se escondem atrás dos peões
Que erguendo bandeiras avançam
Passo a passo
Para o desfiladeiro
A fartura é uma benção de Deus
Que passa sem ser notada
Do contracheque mirrado
Para as contas e celeiros
Dos donos do tabuleiro

bala soft

Vira presunto
Nos becos da favela
Quem fala muito

A Luz

Que força é essa
Que vive em meu peito mas não conheço
Que derruba paredes para construir
Que sacode o corpo, muda as cores nos olhos
Para um mundo arco-íris
Que força é essa
Que fala comigo...
Mas não compreendo
Então apenas escuto
E rio
Um riso criança guardado há milhares de anos
Em inúmeras existências
Um riso milagre, um riso verdade
Que transforma o corpo, que sacode o mundo
Um riso que me liga à origem de tudo
Quando disse Deus: haja luz!
E a luz brilhou
Nesse momento Deus riu

Bei.jo

Boca tem lábios dentes língua
Boca tem sorrisos
Línguas criam palavras
Línguas existem dentro das bocas
Palavras só existem fora das bocas
Beijo é mais que o encontro de duas bocas
Bei·jo (latim: basium)- substantivo masculino
Beijo é palavra
Em boca de homem e mulher
Beijo não tem sexo
Beijo pode ser sexo
Lambidas são beijos que nascem fora da boca
Línguas criam lambidas e beijos
Beijos e lambidas dizem mais que palavras

Múltiplos

Quero ser múltiplos
Não daqueles mínimos e comuns
Dos que nivelam por baixo
Que pensam que o comum
É igual, é uni, é mono
Que se encontram num denominador
Para dividir o que é equivalente

O comum multi, é poli, é pluri
Quero a multiplicação do ser
Do ver, do estar, do sentir
E de tantos outros verbos quanto possíveis
Na variação linguística
Da práxis
do existir

Respiremos os denominadores diferentes
Ouçamos as opções improváveis
Das múltiplas escolhas
Sem que haja gabarito oficial
A solução comum é mínima
É excludente
É enclausurante
É vestibular

Quero viver a desconstrução do léxico
A palavra que acaba de nascer
O sopro ao pé da orelha
Na cola que encontra o saber
E o ressignifica em cumplicidade
Em invenção criativa
Em passe de mágica

Não quero ser múltiplo no mínimo
Em arco-íris que só tem sete cores
Em pretos e brancos
Em rezas pros mesmos santos
Quero fazer juntinho
Com quem odeio
E ver que é bom
E dizer: amei!

Sejamos múltiplos
No per-mi-tir-se
No multiplicar a si
Para todos os elementos
Do conjunto Universo

RITALEE(na)

Aos 10 eu era hiperativo
Aos 20 psicodélico
Aos 30 neurótico anônimo
Será que chego aos 40
Neurótico e reconhecido?

Macumba

Sou preto latino
Gente dessa terra violada
Índio caboclo mestiço
Sou filho de tudo isso
Das veias abertas
De nuestra Latinoamérica
Da Pachamama, sou hijo-xamã
Sou ojubona de mim
Só mais um fruto
Do jardim plantado
Entre a mandinga dos pretos
E a puçanga dos índios

Há mar

Quando duas pessoas amam
Uma a outra
Há amor
Há dois
No mais
Há mais
Não é questão de números
É questão de amar

O Fauno

Desprovido de grandes crenças
Acredito em quase tudo
Nas cores do pôr-do-sol
Em pássaros dançando ao entardecer
Policiais violando as leis
E adolescentes se masturbando cheios de culpa
Acredito nas neuroses e nas prisões de ventre
No desejo e no ódio

Acredito que nas noites frias, fantasmas batam à porta das casas de sujeitos solitários
Eles crêem que sou solitário
Mas eu não deixo eles entrarem
As trancas da minha porta são tão fortes quanto as pregas do cú de um virgem
Dentro de meu castelo rolo no chão com a solidão
Igual a filhotes de cães que simulam lutas mortais com seus irmãos
Escuto música baixinho para não acordar os maus espíritos que embalei com canções de ninar
E tomo banho nu
Mostrando ao universo toda a beleza de sua criação
Me crendo galho nas árvores exuberantes das florestas tropicais onde fui parido

Acredito na felicidade
Dos cidadãos que passam em marcha
Com suas crianças para as escolas
Com seus temores para as igrejas
Com suas frustrações para o trabalho
E com suas contas a pagar, de volta para casa
Para os coitos diários desprovidos de paixão
Para as mentiras televisionadas que faz com que cada um se sinta melhor do que é
Mais honesto que o político corrupto, mais esperto que a protagonista da novela

Eu, que de nada desacredito
e desconfio de quase tudo
Sou o aluno dos meus filhos e o professor dos meus pais
Não me frustro, nem temo
Não moralizo ou me envergonho ou violo meu pudor com orgasmos fingidos
Eu copulo com cada cômodo de minha morada
Transo cada curva do meu corpo e cada orifício que tua língua seja capaz de pronunciar
Eu rezo para os deuses que inventei na manhã de ontem
Diante de altares construídos por minhas mãos
Sólidos como o tesão que ergue o pênis e enrijece os mamilos
Líquidos como a areia que escorre nas brechas das ampulhetas
Como a memória etérea dos tempos míticos e milagreiros

De ti, não desconfio de nada
Nem de tuas rezas, nem de teus pássaros engaiolados
Não desconfio de teus armários repletos de roupas
Nem dos teus planos de viagem nas férias
Nem da comida que enche tuas entranhas
Nem dos misteriosos conteúdos de tuas latas de lixo
Ou do sangue vermelho em tuas veias e artérias
Vermelho como o meu
Não desconfio de tuas alegrias tantas
Do prazer que tens a cada passo de teus dias
Tampouco me regozijo com tua infelicidade
E com os litros de coca-cola que bebes para dissolvê-la
Das vantagens que se espalham no ar
Sempre que abres tua boca de sorrisos brancos
Ou no odor de tuas axilas, que escondes com caros perfumes

Eu gozo em cada gota de suor cheirando a pelo de cabra
Em cada rastro de verdade presente em teus cabelos despenteados
Nas faixas brancas de suas estrias
E no calor que brota em teu ventre e sobe
Para queimar os nervos que te franzem os olhos
E explodir os pilares da civilização ocidental
Que impedem de dançar teus membros acorrentados

Estranho

Amo de um amor apressado
E viajante
De um amor que guarda fotos
Saudades
Um amor que é passagem
Pra eu sair de mim
Pra outros lugares
E outras vidas

Amo de amor estranho
Que sente falta
Que extraña su presencia
E que é excêntrico
Me tirando do eixo
Sempre que me esqueço
De ser algo dado
De dar-se embrulhado
Aos cuidados seus

Amo de um amor de extravio
Que me manda de volta aos postos
De gasolina
Que nunca fecham
Aos portos que jamais param
De vomitar barcos nas manhãs
De ressaca do mar

Acho que amo de um amor ébrio
Que me mareja as vistas
E me lança às ondas
Essas de navegar
Por isso amo apressado
E viajante
Por isso amo
De um amor de saudades

Sapê

Decepados os tormentos
Rebrotam cores das terras
Versos nas vidas
E nos pratos
Comida
A terra pede o amanho
Na roça canta o trabalho
E o muito por fazer
Não o fazer pro outro
Da cana, do café, do faxo
Fazer-se morto nos campos
Em meio a herbicidas
Formicidas
Fungicidas
Suicidas colheitas
Ou cozer a alma para tornar preto
O lenho
Nas fornalhas que queimam
As vidas no deserto verde
Preto é o homem
Da carvoaria
E seu destino imprensado
Entre as fileiras de desilusão
Destino de negro
Em mundo de branco
Pois destino de negro em mundo de negro
É ser criança
E brincar a brincadeira no tempo certo
É ser mulher
E criar-se mulher como quem inventa o mundo
É ser homem
Sem que pra isso
Seja preciso
Matar tudo que não seja
Homem

Espelhos

Olhar o espelho e ver-se
Mente mais que corpo
Reticências num final de livro
Florescência
Debaixo da matéria morta
Do calor extinto
Da fogueira que consome
Pra renascer em colheita
Num corpo de texto
Desconhecido
E pontuar-se
Ver a língua em tudo que se espalha
Entre a pele e o âmago
Ver-se retalho costurado à vida
E em cada história contada
Colher pedaços de si
Remontando a imagem
Criada nos olhos do espelho
Reflexo das contas do terço
No qual me reconheço
E onde rezo entre fios e caroços
A espera dos dias
O silêncio dos vazios
E ensaio diante da luz alheia
O quanto da imagem refletida
Há dentro de mim

Miocárdio

A arma apontada
É contra meu peito
À noite enquanto
Cantam as cigarras
O coração é arrancado
Olho o triste miocárdio
Nas mãos do cirurgião
Que o joga na lixeira
Pulsava até ontem
Foi parando
e parado ficou
Agora é só um buraco frio
Que tento esquentar com cigarros
E doses ardentes de conhaque
Que me queimam a garganta
E me dói forte na cabeça
Me fazendo lembrar que há outras dores
Além daquela de ausência
Que fez meu coração parar

O MENINO DOS LOBOS

poema psicanalítico


Livremente inspirado no caso clínico de Sergei Pankejeff analisado na obra de Sigmund Freud “História de uma neurose infantil” (1918)


Dorme no berço
A tarde quente
O suor cobre seus sonhos
Ardente a febre queima
Da urze roxeada
Ao pasto das ovelhas

De pé como a nogueira
Se faz o homem, fera
Desperto, abre a janela
O olho então espreita
Sete pares de olhos grandes
A devorar uma ovelha

Escorre sangue e o ventre
Se parte em mil quimeras
No campo verde há raposas...
A mão toca os desejos
E o olho abre as janelas
A lã tomba nos campos

Sob o frio do inverno
À noite não há gozo
Apenas a espera
E as uvas apodrecem
Antes da colheita

Deixe as vinhas ao sol
E à ama, os bons anseios
Quem sabe assim floresçam...
A passos largos segue
O dono da videira
Do sol somente o frio
Da poda, os maus receios

A cobra é destroçada
Por sua própria cauda
A casa é derrubada
Na busca pelo albergue
Distante da matilha
A raposa se perde

À sombra da alcatéia
O olho não repousa
E o lobo ataca o velho
Cegado por si mesmo
Arrasta-se o rei Édipo
Pelas ruas de Tebas

O velho sobrevive
E desprovido da cauda
Retorna o lobo à selva
O corpo decepado
À tarde queima em febre
E o leito se incendeia

Em meio ao pasto verde
Ovelhas mortas tombam
Tomadas pela peste
Espalhadas sobre a mesa
Folhas secas de um final de abril
Letras antigas para serem lidas
Línguas estranhas
Que não são as minhas

Espesso e frio
Sigo o texto lido
Que tipifica pensamentos vivos
Mortificando o saber dos leigos
Esteriliza dos espertos
O cio

Deduzo a indução do método
Em um cogito incompreensível
Condensando sobre meus olhos
A sólida liquidez do vidro
Fluído como a água em gelo
Formato meu saber
Escrito
Você me passa um sabão
Eu prato sujo
Cuspido após o uso
Não me faço descartável
Espero do teu ventre
A inquietude da fome
E assim retorno à mesa
Para tua próxima refeição

De grilos e borboletas

Acertamos os passos
Caminhos traçados em papel de pão
Baseados em mapas incertos
Desenhados a quatro mãos
Lembro até de ficar excitado com a ideia
De sairmos por aí
Ver as pessoas
Falar com línguas que não conhecemos
Deu até vontade de sair lambendo o mundo
Só pra sentir o gosto
Colecionar sabores
Pra temperar nossas carnes
E quem sabe até flagrar
Dois grilos se amando
No gineceu de uma papoula
Em jardins com a idade do mundo
Ou uma velha senhora esmolando sob uma árvore
Tão velha quanto nós dois juntos
E embriagado dormir
Sobre o verde dos seus olhos
Sob a lua crescente
Com borboletas girando
Da efervescência do meu estômago
Até o céu da sua boca

Poemazia

As unhas roídas
Sagram
Os cabelos que caem
Tombam
Sobre meus ombros
Nervos
Inflamados e tensos
Dias
Escoando em tarefas
Inférteis
Versos
De um poemazia

Viagem

Caia na estrada
Sempre que puder
A passagem é um dedo
Esticado como a faixa
Que separa os que vão
Dos que vão pro outro lado

Caia na estrada
De mochila, leve
A cabeça fria
E o olhar sedento
De luz vida poesia
A qualquer distância

Em qualquer casa um abrigo
Pros tempos tempos de chuva
E um cobertor a mais
Naquela dose de cana
E vilas
E vidas
E sorridos tantos

A passagem é um dedo esticado
Como a faixa que separa
Aqueles que vão
Dos que vão pro outro lado
Mas não ande na linha
Que o trem passa
Por cima

Solúvel

Nos dias frios deste inverno quente
Proliferam incertezas
Pelas sólidas vias
Nuvens brancas varrem
Amareladas verdades
De minha massa cinzenta
- Concreta imaterialidade
Consolidando projetos
Versos de afetos idos
Memórias de fatos mentidos
Em noites de sono alheio
Valorando pelos dias
Oito horas de atos fingidos
Cometendo o infanticídio
De debutantes desejos
Amarro-me à morada
Que preserva a inconsistência
De tantas ideias escritas
Em páginas publicadas
E me pergunto agitado
Das problemáticas tantas
De questionáveis verdades
Solúveis constatações
A respeito dos humanos
Em sua cruzada epopeica
De gozar seus orifícios
Assim as angústias passam
E se alojam em outras vidas
Passando pela minha
Como essas nuvens de inverno
Que desatinam mentes
Desfazem meu espírito
E já nem sei mais
Se questiono as verdades ditas
Projetando mentiras
Nessas sociais vivências
Sigo pedindo clemência
A essa mente inquieta
Que se espreme na matéria
Deste corpo constipado
Paradoxal realidade
De uma existência
Líquida

Descaminho

Nos caminhos decepados
Dias queimam sob sol de domingo
Luas frias colhem almas vadias
E pesados sobre o Aqueronte de asfalto
Grandes caminhões atropelam
Vidas sem moedas
Pra cruzar o rio

Proliferam cruzes ribeirinhas
Em cemitérios que abraçam rodovias
Que serpenteiam em uma dança maldita
Ao som zunido de automóveis brilhantes
Vaga-luzentes pelos escuros vazios
Dos decepados bosques de eucaliptos

E vão aflitos pelas negras vias
Guilhotinados povos sem destino
Trilhando às margens dos cansados trilhos
Buscando longe
Na garoa fina
Distantes fórmulas de descaminho


Paletas

Se em gris, rubias ou qualquer ocre em flor
Inexplicáveis formas de terras em plantas nascem
Tantas e deste tanto muitos ramos de verde ser
Sem afrontar às existências outras
- Manifestações de Um
Tão poucas
E tão todos
Que não se definem por regras linguísticas
Códices primários
Crendices populares ou qualquer fé de natureza aérea
Qualquer que seja o conhecimento puro
Colonizadas cartilhas ou definições
Psicopatológicas e protocientificistas
Protuberâncias racionais de modernas formulas de
Interligar as naturezas muitas
De matérias várias
Cuja aquarela de possibilidades
Se mumifica ao contato com o papel
Se modifica à contemplação do olhar
e mortifica-se ao se tornar verso

Uma preta

Uma preta atrás da porta
Aberta escura à direita
Encosta seu corpo branco
Sobre o meu
Corpo pulsante
Uma preta atrás da porta
À mostra seu dorso nu
Aberto às escuras deito
Sob seus pelos crespos
E encontro essa fêmea mulher
Quando miro em um espelho
Cobrindo cavalo a pelo
Cavalgante valete preto
Subo às transversais vias
De sua plumagem negra
Com curvas leves à esquerda
De seus impecáveis seios

Fluvial

Te enxergo por detrás
De embaçadas vidraças
Embarcações navegantes
Em naufragadas vagas
Mortas na areia
De nossa desgovernada praia
Emaranhadas em ondas
De tantos lençóis usados
Que em outras vidas eram
Cascas e mais cascas
De nossos corpos desnudos

Sinto os espaços deixados
Por teu corpo aventureiro
Desafiando correntes
Em teu veleiro urbano
Plantando hortas e orquídeas
Nestas ruas de guerrilhas
Somando perspectivas
De anárquicas conjecturas
Semeando delícias
Em pastos já tão pisados
Por reses desiludidas

Encontro pelos e passos
Nos morros e beiras
De rios inquietos
Que correm por ti
Fluentes
E me deparo comigo
Sentado à areia quente
Dobrando folhas e sonhos
Em brancos triviais barcos
De papel arrebatados
Por essas tuas
Correntezas

Das horas da noite

Perseguem os ponteiros
O que lhes é pedido
Atrás uns dos outros
Seguem os bezerros
Do pasto ao matadouro

O mato cresce alto
De cima para baixo
Caem os cabelos
E o inalcançável é atingido
Uma vez a cada volta
Vinte e quatro a cada dia

Onde tá que não vi?
Passou...
Rápido como capricho de criança
Como amor de moço
Com a própria infância

Morrem os amigos
Morremos com eles a cada dia
Trabalhado ou não
A cada noite...
Melhor estar de olhos abertos
Pra nem ver tempo passar
Com beijo, lua e poesia

Temporal

Me falta tempo...
Falta como se fugisse de mim
Como eu fujo de igreja
E de pegar ônibus lotado
E de atravessar a ponte
Porque toda travessia demanda tempo
E te digo: me falta tempo!

Escorre feito lágrima no meu rosto
Escorre entre meus dedos
e pelas minhas pernas apressadas
Sempre que lembro dos amores passados
- E eu amei muito...

Mas me falta tempo!
Sempre que vejo outras pessoas felizes
Com seus bolsos cheios de dias livres
Com seus dentes brancos de horas vagas
Com seus passos lentos
De quem volta do porto
E eu passo apressado
Inimigo das horas
Tento chegar na frente do relógio de ponto
Mas nunca consigo
Porque o tempo corre
De segunda a segunda
Quando tento sentar e ler
Ou escrever linhas
Do desejo e das frustrações
E as frustrações são inevitáveis!

Então desisto de perseguir
De correr como um maratonista
Atrás de algo que jamais para
Pois já se foram os dias em que o tempo parava
Para eu beijar as meninas e morrer de amor
Hoje em dia não se morre mais de amor
Hoje em dia não há mais tempo

Então abro a gaiola do rato
Que corre sem sair do lugar
E desisto do impossível
Para viver o improvável
Agora não há mais tempo
Somente mar e sol ou lua ou noite de estrelas
Agora só há flores e cervejas e carne de porco frita
E baseados para fazer dormir a manhã

E como quem mata Deus
Eu quebro meus relógios
Antes que o despertador toque
Pra que o sol não se levante
Pra que as flores do jardim não murchem
Pra que as lojas de conveniências não abram
Pra que os semáforos continuem sempre assim
Desligados

La Cosecha de Jhon

Pasas por las calles
Dejando sangre y sonrisas
Pasas por las vidas
Más que por las vias
Dejando accá Bogotá
Haciente mucho latino
Nuestro pequeño hogar
Camiñas por existencias
Construyendo su família
Como hermanos y hermanas
De la tierra somos semilla
De la carne somos la sangre
Del cielo
Estrellas fugaces
Que nos encuentramos en los bares
Donde bebimos vida
Y en las calles sembramos flores
Nuestra loca poesía
Así pasaste por estas vías
Recogendo Vitórias guayabos besos
Sembrando encuentros y sonrisas
¿Que más valioso puedes llevar desta cosecha
Además de saber que dejas
Mucho amor en nuestras vidas?

Passagem

A passarela acompanhava as linhas curvas do prado. Mãos dadas roçando polegar e indicadores de uma excitação crescente. Os dedos finos de pele clara e delicada suavam minúsculas gotas que aumentavam a sensação de contato com a mão avermelhada e quente que envolvia e apequenava ainda mais a sua. Em Brasilia, dezoito horas. Paaam-paam-pararaaam, paaam-pararam, pam-pam-pam pam-pam-pam-pam-pam-pam-pammmm pam... A música do rádio é uma velha conhecida de qualquer brasileiro, tocando todos os dias para Silvas, Oliveiras e Santos devotados ao triunfo de seus ilustres patrões que lhes apequenam os anseios e lhes cegam os sentidos. Enquanto a vida passa no transcol da Reta da Penha, o suor seguia escorrendo, arregalando poros e amígdalas, glândulas latejantes pelo calor daquela pele de fogo. Arco de Diana nas mãos de Afrodite.

Automebas

De decrescentes andares
Saltam corpos nas avenidas
Pululantes amebas
No asfalto quente derretem
Esmagadas por automóveis
Que elas mesmas dirigem

Devoção

A tarde cai em noite chuvosa
Gargantas degoladas povoam telas azuis
Uma exposição de espelhos auto-refletidos
Como símios descontentes
Lançam merda aos que observam
Por detrás das grades das jaulas
Às quais muitos se encerram
Mentes postas a mesa
Iguarias para os abutres encefalófagos
O consumo dos dias
Os seios na televisão
Os jogos de videogames
Aos sábados, ir ao shopping com a família
Aos domingos, só Deus sabe
Às segundas o inevitável acerto de contas
Sem esquecer a conta do médico
de próstata e mama
A desvalorização crônica de sua aposentadoria
A degradação do meio ambiente
Que aos seus extremos já degradaram
A vida está por um fio
De fibra ótica que cega
Para o colorido dos dias
Ao Deus dará esperamos
A velhice com Alzheimer
Para que não lembremos todo o lixo que comemos
Para que não choremos toda a vida que cagamos

Noites Mornas

Mornas noites decoradas
Com luzes de hoste e milícia
Ladram cães cinzentados
A fuga sucede em rotina
Calçadas seguem vazias
Povoadas por semi-homens
Ocultos à sombra do não-dia

Nas paredes sujas
dos bares baldios
Resta apenas a lembrança
Dos que hoje em recôndito
Estão cansados das armas
De polícias e bandidos

A noite morna caminha
Com os pés em areia e lama
Esta seca e vazia
E enquanto ao céu puído sobe
O fumo cálido dos fornos das usinas
A lua cospe luz fria
Para poupar sua energia

Das patologias e outras doenças

A tosse insistente me fez acordar às 6h30 para tomar o xarope expectorante de acebrofilina e o antibiótico receitado na semana anterior por causa da sinusite. Aproveitei e tomei um pequeno antialérgico e um omeprazol, pra que os demais comprimidos não despertassem novamente minha gastrite. Deitei tentando me esconder do mundo dia, não que sentisse qualquer mal-estar físico, mas porque queria me permitir meia hora a mais debaixo do edredom. Pouco depois acordei assustado com o celular que tocava ao meu lado. Luci ligava para me desejar um bom dia, ou pra me contar as últimas como fazem os casais. Olhei a hora, 9h21. Pigarreei e havia só um cisco de voz. Atendi com a voz rouca. A dela também não parecia das melhores. Lhe disse que sentia taquicardias, talvez pelo susto do toque do telefone, talvez pelos remédios que eu havia tomado horas antes ou quem sabe por algum mal oculto alojado em meu miocárdio, afinal, meu pai é cardíaco, o dela também e estavam se tornando frequentes essas taquicardias. Outro dia, após uma trepada, senti uma alteração nos batimentos do coração que poderia muito bem ser fruto de uma arritmia ou mesmo de um sopro. Meu coração bate suspirando, disse a ela na ocasião.

Luci me disse ao telefone, sem muita paciência, para procurar um cardiologista na clínica social de Laranjeiras e desabafou sobre sua falta de tempo para terminar sua dissertação de mestrado, do prazo que estava se esgotando, do tempo que ela perdia de casa até a escola onde trabalha e da inflexibilidade de sua diretora com seus atrasos frequentes. Acredita que ela me deu uma falta porque eu faltei anteontem para levar Bia no médico, me disse. Bia era sua filha que tinha quatro anos de idade e estava com uma infecção de ouvido. Coisa de criança. Mas de fato notei que Luci não estava muito paciente naquele dia, nem nos dias anteriores. Me sentei na cama e lhe disse que teríamos um dia melhor hoje. Ela me respondeu descrente que sim. Desligamos.

Fui para a cozinha fazer um café. Já passava das dez da manhã. Exitei um pouco antes de acender um cigarro, mas acabei cedendo. Devia cuidar melhor da minha gripe alérgica. Enquanto bebia meu café sentado no sofá, onde ainda batia um pouco de sol, pensava sobre os problemas de Lucy e de como poderia melhorar seu dia, então observei que minha pele estava precisando de um creme dermatológico. Detesto cremes e pomadas, mas a maldita pitiríase rósea havia voltado e as marcas da herpes-zóster ainda não haviam desaparecido da minha coxa esquerda. Encontrei um hidratante caro que usei após a retirada de dois nevos melanocíticos nos pés dois meses antes e espalhei sobre as pernas e braços ressecados.

Senti uma pontada de tristeza, uma sensação de ausência ou algo do tipo. Me arrumo e saio de casa. Eu estava na farmácia do trevo de Fradinhos comprando um spray de própolis, um soro nasal e alguns preservativos com design que eu ainda não havia experimentado quando Lucy me liga novamente. Era 11h21 e achei muita coincidência. Vinte e um... Ela me disse que estava louca, Bia enrolava para tomar banho e não queria almoçar e que ela acabaria se atrasando mais uma vez para chegar a tempo em Nova Almeida e que a coordenadora da escola já estava de marcação com ela. No meio desse turbilhão me veio à mente uma frase que às vezes eu utilizo, quase como um mantra e que muitas vezes funciona e quando percebi já estava dizendo a Lucy ao telefone "Toda a alegria do mundo está nos seus olhos". Faço isso às vezes. Crio frase e fico me convencendo delas para deixar meu dia melhor. Lucy ficou puta e disse que minha vida era muito fácil e que, além do mais, ela era míope e não via porra de alegria nenhuma na merda do mundo. Beijo. Tchau! Desligou. Vinte reais e noventa e sete centavos, disse a balconista da farmácia com cara de Rainha do Rodeio de Brejetuba. Entreguei a ela R$21,00. Não houve troco. Mais uma vez vinte e um...

Sai da farmácia, apliquei o própolis na garganta, o soro nasal onde é de costume e fui andando para o ponto de ônibus meio puto pelo fato da Lucy ter desligado na minha cara. Auto-sugestão... comigo sempre funciona. Por fim relevei, mas se as pessoas tentassem perceber que "toda a alegria do mundo está nos seus olhos", acho que teriam uma vida muito mais saudável e feliz. Acendi um cigarro e quando dava o primeiro trago passa o meu ônibus.

Passados


O tempo para quando se espera
Aí não há tempo
Há o que for
Pensamentos longos
Palavras perdidas
Nos labirintos da memória
Insatisfações

O anelo está em si
No ser que deseja
Na temporalidade do querer
Seja o que for
Espera-se o fim
Da espera
Satisfação

Alheios instantes seguem
Ponteiros girando incessantes
E ao que foi feito
Sentido no próprio
Desejo satisfeito
Consome o prazer do gozo
Seja qual for

O tempo se cria do que passa
De passos
Pegadas na areia da praia
Ou qualquer outra metáfora
Criamos o desejável
E o desprazer da ânsia
Por isso corremos
Seja quem for
Para alcançar-se
Satisfeito

Dos passos criamos tempo
E este é todo apressado
Vivendo de anseios frustrados
Momentos de espera
ou gozo
Seja o que for
Fomos
E assim estamos
Passados

Mandala

Parte da terra essa coisa toda
Sementes féculas e florações
Parte da água também
Fluidos de saliva e suor
Hormônios e almíscar

Outro dia vi
O céu chovendo terra
Agitada pelo vento
Derrubando árvores

Que terra é essa que repele
O que brota dessa terra outra?

Do encontro entre água e terra
Sinto o suave
A argila criando dedos
Curvas vivas de massa úmida
Gerando desejáveis deuses
Amantes construídos com argila e fogo
Que de águas e terras vindos
Arrebatam poderosos
De nossas vistas o sol
Da terra se lhes convém

Acho que parte do fogo essa coisa toda
Nossas moradas incendiadas
Massa ígnea fluída
Como a água que, artesã
Envolve a terra entre os dedos
E estes desaparecem cobertos
Pela fúria dos vulcões

Incendiados
Somos terra e água
E cinzas arrastadas pelo vento
Terra que sobe ao céu
Para depois descer
Devastadora como as paixões que lemos
Nos livros e nos poemas

Sim
Parte da terra essa coisa toda

Ventania

As ruas foram varridas por revoltados ventos
As asas quebradas dos mal fadados pássaros
Contaram-me sobre o que não pôde ter sido
Tessituras repletas de buracos
Maltrapilhos encontrados na perdição de dias outrora marcados
Nada a ver com o que não se esperava
Mas a espera
Longa caminhada
Não me levaram à minha mesma casa
Às mesmas existências nossas
Ao revés
Revi tudo abandonado
Desabadas prateleiras da associação de artesãos
Das aveludadas salas de espera
Dos cinemas e teatros
Que não se associam aos artesãos das praças
Aos perdidos caminhantes das estradas de asfalto
Repletos de berlugas e piolhos sobre suas aéreas
Cabeças
Perdi meus sapatos e caminhei descalço
Velhos ventos soprando ruínas
Desencontros compartilhados por frustrações arredias
Decepadas propostas
Decapitadas falas
Fálicas falácias de contrariadas vaginas
Arrancadas as arvores de uma geração falida
Passada
Calças ruas calçadas repletas de sequidão
Cruzada por pés descalços
O peso dos dias sobre os maltratados ombros
Postos à lixeira de um progresso armado
Sonhos
Arames farpados ao redor dos anseios desconhecidos
Casa de marimbondo sobre os maracujás maduros
Ceifa de soja agrária nos envenenados campos
Coitos desenfreados com lágrimas nos olhos
Pelas borboletas mortas
Pelo alvo perdido
Nas labirínticas ruas dos risos inalcançados

Perdição

Nos perdemos no óbvio
Das salas de espera
E em horas extras que tomam
Muito mais
Que horas extras

Nos movemos mórbidos sobre as avenidas
Empilhando desejos
Andar por andar
Em apertadas caixas de ilusão

Como lesmas que se arrastam
Pagando uma vida inteira
O peso de sua concha

Conduzindo o tempo sobre as horas dos dias
Com enlatados egos comprados
Nas vitrines dos desejos formatados

Não vemos porque estamos cegos
Levando os olhos nas carteiras
E à luz do sol nos debatemos
- Irônicos morcegos

Espalhamos sentidos ao que quer que seja
Vetorizados os anseios
Deificamos escarros, esporros
Massa hercúlea de frustrações

De não sermos nunca as vidas
Das novelas e revistas
Incessantemente consumidas
Doze meses por dia

Canto ao Jovem Pound

Já celebrei mais de três céus
Em mais de três oceanos
E digo: nada é igual
Gaivotas e andorinhas
Nuvens de chuva ou sol
Mudam de cor com o tempo
As conchas e os caracóis
Mulheres não há iguais
Bicos de peito e manhas
Pelos na pele
Encontros
Desejos, os mais diversos
E há muito mais que três cidades
Ou três cores de olhos
Rosados, rubros e negros
Lábios grandes e pequenos
Inferno purgatório e paraíso
É pouco para um latino Virgílio

Estrelas

Há noites belas
Com brisa pixada nos muros
Vento leve passando por cabelos
Que não se mexem
Negros cabelos crespos
O luar pendurado logo acima dos postes
As estrelas não se vê...
Mas é bom saber que brilham
A vinte anos luz
Da Ilha de Vitória

Noites Demais

Chegam mais e mais
Trocando cumprimentos e sorrisos
Empertigados espíritos
Mostram aos olhos atentos
As folhas caídas
De outras estações
Nada a ver com algo belo
Da beleza dos estetas
Digo de areia e lama
Suor escorrendo das testas
Bicas de sentimento fluindo
Dos lábios das paixões das ideias
E porque não
De substâncias secretas
Guardadas por mãos negras

As noites encolhidas passam
Temerárias horas de espera
Doses e mais doses de conversa leda
Composta em tantos ruídos que me escapam
A melodia dos sonhos
Do voo de borboletas
Da voz feminina à minha frente
E ainda muita coisa falta
Os espaços vazios
Vagões sobre trilhos comprimidos de desejos
Sinceros beijos sorridentes
E ainda sobra tanta coisa
Que um olhar atento poderia revelar
Mas nós estamos cegos

Temores

Exposto à natureza dos homens temo
Moral relógios bebidas alcólicas chás emagrecedores
Empregos
Brigas e brigas após noites de sexo
A diária cópula das moscas
Perdem noites afirmando verdades
Não sabendo que a única verdade está no sonho que não tiveram
As roupas os cheiros
As afirmações homo-afetivas
As declarações hetero-normativas
Os pais os anéis o status do serviço público
Os carros....
Ó deus todo poderoso
Como temo os carros

Vitórias

Aconselho Vanessa
Com o carinho de um amante
Desejo boa noite a Ana
Elogio os lábios de Camila e digo
Você é linda
Troco olhares com Carolina
Tapas e toques com Mariana
Compro bombons para Olavo
Beijo o pescoço de Marcela sempre que a cumprimento
Ela se arrepia
Seguro as mãos de Yara
Roço os ombros nos seios de Fernanda
Escrevo e-mails para Lucas
Lembro noites com Érica
Me masturbo por Kehlen
Recebo mensagens de Aline
E me embriago todas as noites
Exalando tesão e injúrias
Para dormir sozinho

Amanhecer

As garrafas estão vazias sobre pilhas de outras garrafas
Vazias
A sala se desfaz do encanto da noite quente
Dos copos cheios de cerveja
E corpos quase nus tocando
Dois ou três outros corpos
Quase todos dormem
Do outro lado de nossas paredes
Cheiros risos cantos desconhecidos
De todos que passam debaixo
E acima dessas janelas
Os cigarros se acabando
Contam cinzeiros cheios
Verdades gritadas à noite
Que não são mais que lixo
Ao adormecer da lua

Da Vida

Estava assim
Como sempre nunca estivera antes
Lábios grossos desejos
Pernas como não nem
Sempre estivera ali
Perdida entre montes
Multidões de olhos castanhos
Nada queria
Mesas de bar e jogos
Passagens passes ao fim da sessão
Pernas como nunca jamais
Olhares atentamente desperdiçados pelo ar
Da noite nada queria
Jogos de mesas em bares
Lábios
Grossos desejos
Tomou um trago e voltou
Para a rua
E os reflexos nos olhos dos perdidos meninos mudaram por todo o resto da vida

Cereja

Ela olha séria
Vítima
Diz que sofreu injúrias
Abandono violações
Não se questiona um momento
Sequer
Perde-se nas frases feitas
Por si mesma
Quer ser
Quer ter
O que quer que seja
Apertando os dentes enfrenta
As luas
As noites escuras
Campos de corujas não mais
Cabelos ao vento
Nem pensar
Mascate das matinais horas
Não se perde no caminho
Nunca
O encontrou
Cedo
Ou tarde demais

O Caçador

Para Fenris Khefferos

Nada diante dos olhos
A noite como véu cobria
Cores carros vida
Carinho de mão amiga
E beijos de jovens moças
Tudo fora do eixo
Movia-se no sentir
No ressentir tantas ausências
Das surras risos de homem
Os de mulher lhe feriam os ouvidos
A turma seguia patrulhando as ruas
Mocinhos e bandidos
Horda de infantes bárbaros
Marchando rumo ao oeste
Sioux apaches mohicans
Como uma antiga canção
Rikbatsa avá guarani
Morto com a terra
Dobrada sobre si
Vomitando sangue escuro
Sobre pés de olhos claros
Renascia vingante
Cavaleiro fantasma de olhos vermelhos
Peças negras sobre o corpo
Aço curtido couro
Coagulado
Sangue sobre os cabelos
Cobria longas distâncias
Asfálticas dissidências
À noite sob véus
Ferro e fogo
Luz nenhuma se escutava
Queimava lhe em chamas o peito
O ódio dos dias
Sangue coagulado sobre os negros
Longos cabelos
Plumas, uivos, assobios
Ceifeiro um a um caía
Das jovens dos carros dos dias
Cores não nada mais
Se cria vampiro nas tardes
De sol
Das chamas as dores no peito
Sangue coagulado sobre os cabelos
Nada diante dos olhos
Beijos de jovens cobria
O véu a vela a noite fria
Alívio das dores das vidas
Que nas chamas em seu peito
Ardiam

Campos de Partidas

não te encontro nos terminais do transcol sob meus pés quebradas pás de ventilador abafadas as inchadas feridas não respiram mais presas no interior de meus sapatos pés presos sob o peso de um corpo pálido magro negativo o saldo de sua conta bancária estradas correm levando carros para o norte nada mais encontro nos dias terminais os passos contidos sequer sei se ainda existem as estradas correm sem os pesados presos pés cortados tristes seguem os dias noites de neblina não encontram teu sorriso tímida trêmula sob os olhos de rômulo remo para longe desse vesgo rasgo de viscosa lama movediça noite dia escorrendo pelas vias de semáforos concretos e inchadas enxadas e pés de pás quebradas sob fétidas feridas palmilhas escondidas nos sapatos que suportam o peso da não ida o partido encontro desencanto da não despedida às pressas porque tudo é partida nos movimentos do ar dos carros sobre rodovias às recônditas picadas o voo da ave ferida parte da superfície branca pedaços cortantes de uma cascara rompida do ovo sai a lânguida serpente o filho que aos seus retorna reencontro nos campos de partida nos aeroportos nos portos carregados de mercadorias nos terminais do transcol jamais te encontrei perdido entre filas de pernas mais vivas do que as minhas férteis poesias mais belas ainda do que tuas pernas pendidas sobre as amuradas de inócuas avenidas divisoras de passagens em largas rodovias aí estão plantadas não sedem ao rígido impacto como sedia sedenta em teu sedentário sexo artístico de vagina fantasiada em virgens milhares de milhões de milhas percorridas entre o fálico desejo e tua fissura estática cálida calada em meio aos passos que levam a toda parte a mil partidas despedidas coitos já nem sei mais recorro à mão amiga e a outras tão amigas quanto a destra e a sinistra perdeu-se a conta o canto de sereia cuja concha é morada é armadilha amordaçada enfim eu viajante terno de pernas cortadas e sapato gasto milhares de horas de busca pelas ruas não pelas rodovias donde nunca fruístes te moves de outra maneira pelo movediço charco repleto de velas amarradas de moscas investindo sobre meu corpo magro apático
coberto de lesmas de lesmolisas caracoleando as calçadas da lama de porcelanas sujas onde encontro o descanso das pás quebradas sob meus pés de inchadas feridas