Incidimos sobre os mesmos erros
Passos perdidos no passeio público
Filhos, novelas e cachorro latindo na varanda
Os dias seguem os mesmos
E sequer nos imagino escorrendo de alegria
Pelas ruas da cidade como fizemos noutras vidas

Empenhamos nossa beleza e sorrisos carinhosos
Vendemos beijos e mesmo noites de amor
Fomos agredidos e rejeitados
Sofremos da pele, dos rins e do coração
Negamos a solidão pois somente ela é verdadeira
E nos faz sentir o peso de tantos fetiches
Sem véus ou ataduras
As fraturas e cicatrizes de nossos calados desejos

Movimento

Brotam palavras de ordem das bocas jovens
Gritadas aos ouvidos
Dos velhos indignados com uma rua fechada
Trânsito lento
Vidas paradas
Os resmungos sobressaem ao vampírico movimento
Justo que se alimente do sangue jovem derramado
Ninguém lamenta
Enquanto há prantos
Dentro dos belos carros amontoados
Nas rotatórias das finas ruas
Pavimentadas da Praia do Canto

Avóbito II

Duas velhas repousadas
Dos dias de Alzheimer não se lembram mais
Estariam deprimidas
Ou teriam se esquecido
De se lembrar de viver?

Um mês interrompido
Largo de dias morridos
Aberto e fechado
Na serena placidez de um cemitério-parque
O mesmo outrora visitado

Velo noites de luas minguadas

E encontro tristes olhares
Nos mesmos olhos moldurados
Sobre uma boca rosada
E narinas ora chorosas
Por nossas velhas morridas

Dedicado a Vanda da Silva no dia de seu falecimento, 03/06/2011.

Vira-latas

Ganidos agudos
O auto veloz moveu-se de encontro ao cão
Que tristeza!
Na tarde poluída agoniza sob olhares
Da criançada agitada
O pobre vira-latas
Palmilheiro de ruas carcomidas
Dos bairros periféricos raramente saía
Caçando com sagaz olhar
A pelanca dispensada
Dos açougues e aviários
Dos jantares das famílias laboriosas pretendia
Apenas os roídos
Ossos que lhe cabiam
Observe o leitor que a tragédia se apruma
Do pet shop saído um yorkshire penteado
No coche alemão de um chofer desavisado
Movido à velocidade desumana
Das fluídas veias urbanas
Um pequeno desvio para além do que estava obstruído
E um salto da calçada de onde era enxotado
Produziu-se o encontro descrito
Agudos ganidos
Que tristeza!
Pra criançada agitada
O pobre vira-latas
Na tarde poluída agoniza sob olhares
De um yorkshire peinado