Geovana's Happy Hour

O sol se punha com a tácita algazarra dos pássaros. As virginais ninfetas da escola saídas cruzavam olhares com os meninos e esses, retribuíam com comentários sexualmente muito maldosos para sua pouca idade. Perdida entre pensares importantes o suficiente para lhe tomar a mente após uma saraivada de alunos inquietos, mas não suficientemente ilustres para que ela se recordasse o assunto se perguntada uma hora depois, saía suspirosa de mais uma tarde de trabalho na escolinha municipal de Nova Almeida. A mochila pesada era carregada sobre apenas um ombro e o jeans levemente largo para suas medidas lhe imprimiam um ar descompromissado. As ruas estavam levemente movimentadas e entre os paralelepípedos e as calçadas irregulares, a sarjeta acomodava gentilmente os papéis de balas e outras guloseimas que eram vendidas à porta da escola, assim como as folhas secas de castanheiras que se derramavam sobre os dias como é comum em meados de agosto. Os passos lhe arrastavam até o ponto de ônibus e os meses lhe arrastavam para as férias tão esperadas. Sentia a estrada pulsando em suas veias. Uma vontade de viajar sem rumo por velhas carreteiras ainda desconhecidas. Não fumava, mas teve vontade de dar uns bons tragos no cigarro que um rapaz fumava à espera do Transcol. Orientou-se do tempo pela luminosidade do céu. Os tons de laranja convertiam-se em rosa e lilás, seguindo até um azul mais escuro no horizonte oposto. Mordeu levemente os lábios antes de romper a hesitação. Saiu a passos largos do ponto de ônibus, antes que fosse tarde demais. Chegou à rua da praia e levemente resfolegante, sentou à mesa de um barzinho, respirou fundo, afastando qualquer sombra de compromisso que lhe pudesse tomar o início de noite e avistando o garçom pediu uma cerveja bem gelada. Aliviou-se dos dias como uma epífita curada por chuva após alguns meses de estiagem. O sol esqueceu de se por vendo a jovem que se transformava em orquídea e até agora estão da mesma maneira, admirando-se um ao outro no entardecer de Nova Almeida.

Só Dois

Seremos só dois
Mas depois virão os outros
Com sua cara ou a minha
Tanto faz
Pois serão tu e eu
Pois seremos nós eles
E teremos um cão
Seu eterno rival
Pela liberdade das flores
Crescerem
No quintal
Casa cheia aos domingos
Babá nas noites de sábado
Conta conjunta
Seremos só dois
Compartilharemos livros
Comentaremos indignados
Crimes contra a família
Ou contra a paz mundial
Tanto faz
Pois serão nossos lábios
E olhos revoltosos
E quanto recolheres teus verbos
Tuas sobrancelhas serão sinais
Os dias passarão pensativos
Noites sem o suor do teu corpo
Mágoas
Nos porta-retratos dias coloridos
Viagens de trem
Amigos que já se foram
As rotas
Os corpos
Nas vidas nada mais do mesmo
Nem dos meus vinte anos
Porque o mundo gira
Em sentido anti-horário
Porque hoje seremos só dois

Bahia

Como sóis nascidos e poentes
Brilhos vistos nos olhos e nos ouvidos
Risos de cores e flores e panos
Ritos de música
Velhos e Novos Baianos
Do solo nascidos
Juazeiros e Remansos
Já diziam outros versos
E contos e cantos
Pois há inda quem diga
Que o Sol há tempos juntou seus panos
Com os da Lua sem revelia
E se casaram numa praia
Vivendo amor na Bahia

Borboleta

No azul das telas pintadas
Se foi, com asas de borboleta
Das tardes tingidas em flor
E poeira dos carros a passar
Mergulhada em novos anseios
De um só
Dia a mais para ver
Um pôr-do-sol em laranjas
Rimas de poeta ouvir
Quando aos ouvidos cantavam-lhe
Uma mentira a mais

E aconchegava-lhes ao seio
Só pra não dormir só
A noite que traz o sono
Do prazer e do desencontro
Mas destinação encontrou
Quando embriagada de luz
O vento sua asas deixou
À sombra do amanhecer

Poli(cé)tico

Regrados gestos
Ao público não observa
Passa por suas demandas
Dá de ombros

O compasso ditador do ritmo
Embala o asco que ora sinto
Dos meus passos nas rodas de samba
Que hoje, não –
Redondamente enganado
E cético –
Não creio no futuro da nação

Mais que isso
A corruptividade humana
Sequer me priva da repulsa a qualquer ideal moderno
E antes um ideal pós-moderno surja...
Realmente após essa modernidade

Não discordo dos argumentos democratas
Lamento os paletós, as bravatas
E as bandeiras vermelhas queimando na cidade
Enquanto sonhos de mudança são apagados
pela borracha dos balaços militares e bombas lacrimogêneas

Mas por hoje tentaremos chorar
Ou quem sabe seguiremos em noites
Regadas a cerveja barata e cocaína vagabunda
Acreditando que fazemos arte e vivemos poesia