Viagem

Caia na estrada
Sempre que puder
A passagem é um dedo
Esticado como a faixa
Que separa os que vão
Dos que vão pro outro lado

Caia na estrada
De mochila, leve
A cabeça fria
E o olhar sedento
De luz vida poesia
A qualquer distância

Em qualquer casa um abrigo
Pros tempos tempos de chuva
E um cobertor a mais
Naquela dose de cana
E vilas
E vidas
E sorridos tantos

A passagem é um dedo esticado
Como a faixa que separa
Aqueles que vão
Dos que vão pro outro lado
Mas não ande na linha
Que o trem passa
Por cima

Solúvel

Nos dias frios deste inverno quente
Proliferam incertezas
Pelas sólidas vias
Nuvens brancas varrem
Amareladas verdades
De minha massa cinzenta
- Concreta imaterialidade
Consolidando projetos
Versos de afetos idos
Memórias de fatos mentidos
Em noites de sono alheio
Valorando pelos dias
Oito horas de atos fingidos
Cometendo o infanticídio
De debutantes desejos
Amarro-me à morada
Que preserva a inconsistência
De tantas ideias escritas
Em páginas publicadas
E me pergunto agitado
Das problemáticas tantas
De questionáveis verdades
Solúveis constatações
A respeito dos humanos
Em sua cruzada epopeica
De gozar seus orifícios
Assim as angústias passam
E se alojam em outras vidas
Passando pela minha
Como essas nuvens de inverno
Que desatinam mentes
Desfazem meu espírito
E já nem sei mais
Se questiono as verdades ditas
Projetando mentiras
Nessas sociais vivências
Sigo pedindo clemência
A essa mente inquieta
Que se espreme na matéria
Deste corpo constipado
Paradoxal realidade
De uma existência
Líquida