Estranho

Amo de um amor apressado
E viajante
De um amor que guarda fotos
Saudades
Um amor que é passagem
Pra eu sair de mim
Pra outros lugares
E outras vidas

Amo de amor estranho
Que sente falta
Que extraña su presencia
E que é excêntrico
Me tirando do eixo
Sempre que me esqueço
De ser algo dado
De dar-se embrulhado
Aos cuidados seus

Amo de um amor de extravio
Que me manda de volta aos postos
De gasolina
Que nunca fecham
Aos portos que jamais param
De vomitar barcos nas manhãs
De ressaca do mar

Acho que amo de um amor ébrio
Que me mareja as vistas
E me lança às ondas
Essas de navegar
Por isso amo apressado
E viajante
Por isso amo
De um amor de saudades

Sapê

Decepados os tormentos
Rebrotam cores das terras
Versos nas vidas
E nos pratos
Comida
A terra pede o amanho
Na roça canta o trabalho
E o muito por fazer
Não o fazer pro outro
Da cana, do café, do faxo
Fazer-se morto nos campos
Em meio a herbicidas
Formicidas
Fungicidas
Suicidas colheitas
Ou cozer a alma para tornar preto
O lenho
Nas fornalhas que queimam
As vidas no deserto verde
Preto é o homem
Da carvoaria
E seu destino imprensado
Entre as fileiras de desilusão
Destino de negro
Em mundo de branco
Pois destino de negro em mundo de negro
É ser criança
E brincar a brincadeira no tempo certo
É ser mulher
E criar-se mulher como quem inventa o mundo
É ser homem
Sem que pra isso
Seja preciso
Matar tudo que não seja
Homem

Espelhos

Olhar o espelho e ver-se
Mente mais que corpo
Reticências num final de livro
Florescência
Debaixo da matéria morta
Do calor extinto
Da fogueira que consome
Pra renascer em colheita
Num corpo de texto
Desconhecido
E pontuar-se
Ver a língua em tudo que se espalha
Entre a pele e o âmago
Ver-se retalho costurado à vida
E em cada história contada
Colher pedaços de si
Remontando a imagem
Criada nos olhos do espelho
Reflexo das contas do terço
No qual me reconheço
E onde rezo entre fios e caroços
A espera dos dias
O silêncio dos vazios
E ensaio diante da luz alheia
O quanto da imagem refletida
Há dentro de mim

Miocárdio

A arma apontada
É contra meu peito
À noite enquanto
Cantam as cigarras
O coração é arrancado
Olho o triste miocárdio
Nas mãos do cirurgião
Que o joga na lixeira
Pulsava até ontem
Foi parando
e parado ficou
Agora é só um buraco frio
Que tento esquentar com cigarros
E doses ardentes de conhaque
Que me queimam a garganta
E me dói forte na cabeça
Me fazendo lembrar que há outras dores
Além daquela de ausência
Que fez meu coração parar

O MENINO DOS LOBOS

poema psicanalítico


Livremente inspirado no caso clínico de Sergei Pankejeff analisado na obra de Sigmund Freud “História de uma neurose infantil” (1918)


Dorme no berço
A tarde quente
O suor cobre seus sonhos
Ardente a febre queima
Da urze roxeada
Ao pasto das ovelhas

De pé como a nogueira
Se faz o homem, fera
Desperto, abre a janela
O olho então espreita
Sete pares de olhos grandes
A devorar uma ovelha

Escorre sangue e o ventre
Se parte em mil quimeras
No campo verde há raposas...
A mão toca os desejos
E o olho abre as janelas
A lã tomba nos campos

Sob o frio do inverno
À noite não há gozo
Apenas a espera
E as uvas apodrecem
Antes da colheita

Deixe as vinhas ao sol
E à ama, os bons anseios
Quem sabe assim floresçam...
A passos largos segue
O dono da videira
Do sol somente o frio
Da poda, os maus receios

A cobra é destroçada
Por sua própria cauda
A casa é derrubada
Na busca pelo albergue
Distante da matilha
A raposa se perde

À sombra da alcatéia
O olho não repousa
E o lobo ataca o velho
Cegado por si mesmo
Arrasta-se o rei Édipo
Pelas ruas de Tebas

O velho sobrevive
E desprovido da cauda
Retorna o lobo à selva
O corpo decepado
À tarde queima em febre
E o leito se incendeia

Em meio ao pasto verde
Ovelhas mortas tombam
Tomadas pela peste
Espalhadas sobre a mesa
Folhas secas de um final de abril
Letras antigas para serem lidas
Línguas estranhas
Que não são as minhas

Espesso e frio
Sigo o texto lido
Que tipifica pensamentos vivos
Mortificando o saber dos leigos
Esteriliza dos espertos
O cio

Deduzo a indução do método
Em um cogito incompreensível
Condensando sobre meus olhos
A sólida liquidez do vidro
Fluído como a água em gelo
Formato meu saber
Escrito
Você me passa um sabão
Eu prato sujo
Cuspido após o uso
Não me faço descartável
Espero do teu ventre
A inquietude da fome
E assim retorno à mesa
Para tua próxima refeição